Desde o início da guerra civil no Sudão, em 2022, mercenários do Chade, da Etiópia, da Líbia e do Sudão do Sul têm operado no país, juntamente com alguns provenientes de nações mais distantes. Entre eles contam-se os combatentes do Grupo Wagner, da Rússia, que já tinham interesses no sector do ouro naquele país, operadores de drones ucranianos rivais que trabalharam para ambos os lados e mercenários independentes do Sahel.
Novas reportagens revelam que mercenários colombianos acusados de cometer atrocidades no Sudão foram recrutados e treinados por uma rede secreta sediada nos Emirados Árabes Unidos (EAU).
O jornal Financial Times (FT) entrevistou sete mercenários colombianos que pediram para permanecer anónimos antes de descreverem em pormenor a sua mobilização para o Sudão. Alguns acabaram por participar no que ficou conhecido como o massacre de El-Fasher, em Darfur. Os especialistas afirmam que os intervenientes estrangeiros prolongam a guerra no Sudão ao fornecerem armas, mão-de-obra e financiamento às Forças Armadas do Sudão e às Forças de Apoio Rápido (RSF).
Os EAU negaram apoiar as RSF com armas ou efectivos e afirmam que pretendem mediar a paz no país.
O FT noticiou que o Global Security Services Group (GSSG), uma empresa de segurança privada sediada na capital dos Emirados, Abu Dhabi, enviou cerca de 2.000 mercenários colombianos para combater no Sudão ao lado de combatentes das RSF.
Um combatente colombiano disse ao FT que cerca de 300 especialistas foram treinados secretamente em operações com drones e antiaéreas nos Emirados Árabes Unidos entre Janeiro e Outubro de 2025, antes de serem destacados para o Sudão. “O projecto começou com salvadorenhos, mas faltava-lhes disciplina,” disse ao jornal para um artigo de 15 de Agosto. “Depois disso, passaram a contar com os colombianos. Somos muito disciplinados. Estamos habituados a cumprir ordens.”
Seis ex-crianças-soldados sudanesas partilharam as suas histórias anonimamente com a The Associated Press, incluindo dois que afirmaram ter sido treinados por mercenários colombianos. Os rapazes afirmaram que combatentes das RSF os raptaram e os levaram para uma base em Omdurman, onde também estavam detidas dezenas de crianças, com as mãos sempre amarradas.
Um deles disse que havia dezenas de mercenários estrangeiros, descritos pelos combatentes das RSF como colombianos. Falando através de tradutores, os mercenários ensinaram as crianças a utilizar armas antiaéreas. Disseram aos combatentes das RSF para amarrarem as crianças às armas para que não pudessem fugir, afirmou.
“Quando os aviões sobrevoavam a área, os colombianos retiravam-se para os seus abrigos, deixando-nos lá fora acorrentados aos veículos,” disse à AP para uma reportagem de 30 de Julho.
O Conflict Insights Group, uma empresa privada de investigação, colaborou com o FT na sua investigação, analisando dados de localização de telemóveis. Rastreou mais de 40 dispositivos que utilizavam configurações em Espanhol, seguindo-os desde Abu Dhabi até um ponto de trânsito no Estado semiautónomo da Puntlândia, na Somália, e depois para vários locais na região de Darfur, no Sudão.
“Havia mercenários presentes quando as RSF capturaram a cidade e cometeram alguns dos assassinatos mais horríveis deste século até agora,” Justin Lynch, director do Conflict Insights Group, disse ao FT.
Um dos mercenários que falou com o jornal confirmou que se encontrava em El-Fasher.
“O ar estava repleto de moscas, atraídas tanto pelos cadáveres como pelos montes de lixo,” afirmou. “Havia corpos que já tinham ficado roxos por terem estado expostos ao sol durante tanto tempo.”
Outro confirmou o recurso das RSF a crianças-soldados.
“Há crianças com menos de 12 anos a carregarem espingardas que nem conseguem levantar e a arcar com a responsabilidade de uma guerra na qual nem sequer sabem o que devem fazer,” afirmou.
