A aliança entre a Frente de Libertação do Azawad (FLA), um movimento separatista liderado pelos Tuaregues, e o grupo terrorista Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), afiliado à al-Qaeda, está a redefinir a dinâmica do conflito no Mali.
A coordenação entre os grupos ficou evidente no dia 25 de Abril, quando atacaram a cidade de Kidal, no deserto do nordeste, obrigando os soldados malianos e os mercenários do Africa Corps da Rússia a recuar. Nesse dia, atacaram também Bamako, a capital nacional, e Kati, ambas no sudoeste; Gao, no nordeste; e Mopti e Sévaré, no centro do Mali. O ataque a Kati causou a morte do General Sadio Camara, Ministro da Defesa e dos Assuntos dos Veteranos do Mali.
No dia 5 de Julho, os grupos atacaram as cidades de Aguelhoc e Anefis, no nordeste, um acampamento militar em Gao, uma prisão em Keniroba, perto de Bamako, e Sévaré. Marie Dubois, especialista em segurança africana e operações antiterroristas, caracterizou estas cidades como “pontos de pressão escolhidos para forçar o exército maliano a procurar em todos os lados ao mesmo tempo.”
“Gao controla o Sahel oriental e as rotas para Ansongo e Ménaka. Sévaré, perto de Mopti, continua a ser um centro aéreo e logístico crucial para controlar o centro do país,” Dubois escreveu para o HiWars, um site de notícias militares. “Aguelhoc e Anefis pertencem ao espaço político-militar de Kidal, onde a questão Tuaregue continua a ser mais do que um mero caso antigo. Por fim, Kenioroba fica demasiado perto de Bamako para ser tratada como uma mera periferia rural.”
Em meados de Julho, os grupos reivindicaram a responsabilidade pela morte ou captura de dezenas de soldados do Exército do Mali e combatentes do Africa Corps numa coluna na região de Gao. No dia seguinte, o Exército do Mali afirmou ter levado a cabo “ataques de precisão contra posições inimigas” na área.
“Três posições terroristas foram alvejadas com sucesso (e) vários terroristas foram neutralizados. … Estas operações permitiram que a coluna se libertasse das emboscadas e continuasse a sua rota,” o Exército do Mali disse numa reportagem da The Associated Press.
De acordo com o Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED), o número de mortos em ataques militantes aumentou 35%, para 3.435, nos primeiros sete meses deste ano.
“O JNIM e a FLA reconhecem a vantagem de colaborarem entre si, uma vez que funcionam como multiplicadores de força um para o outro,” Héni Nsaibia, analista sénior para a África Ocidental no ACLED, disse à AP. Ambos os grupos partilham o objectivo de “acabar com o inimigo comum,” que consideram serem as Forças Armadas do Mali e o Africa Corps, acrescentou Nsaibia.
O porta-voz da FLA, Mohamed Elmaouloud Ramadane, disse que os grupos tinham concordado em decidir que versão da Sharia devem aplicar após garantirem a independência das comunidades do norte do Mali. Ramadane disse à AP que a relação entre os grupos é “uma forma de coordenação táctica” centrada em operações militares.
Altos responsáveis de ambos os grupos disseram à Al Jazeera que tinham posto de lado as diferenças ideológicas para enfrentar um inimigo comum. O Coronel Mohamed Issa, um oficial superior da FLA, disse que o grupo está empenhado num Azawad independente, visto que os anteriores acordos de paz fracassaram repetidamente devido ao incumprimento por parte de Bamako. Issa afirmou que os combatentes do JNIM que operam ao lado da FLA são exclusivamente de Azawad, em vez de membros da rede regional mais ampla do grupo, e que estão a defender as suas comunidades.
Suleiman, um comandante sénior do JNIM, disse que o grupo concordou em colaborar com a FLA porque os combatentes de ambos os lados provêm, na sua maioria, de “um mesmo povo” enredado no mesmo conflito, e os seus objectivos são “relativamente unificados,” segundo noticiou a Al Jazeera. Suleiman revelou apenas o seu primeiro nome por motivos de segurança.
No entanto, “não se deve confundir coordenação operacional com fusão política,” escreveu Dubois. “A FLA procura um equilíbrio de poder com Bamako em torno do Azawad. O JNIM pretende impor a sua ordem religiosa e enfraquecer o Estado maliano ao longo do tempo. Estes dois projectos não são idênticos. Podem até voltar a ser adversários amanhã.”
Os grupos já se tinham aliado contra o Estado do Mali em 2012, mas as forças voltaram-se umas contra as outras devido a objectivos políticos e religiosos divergentes após a tomada do norte do Mali. De acordo com Wassim Nasr, investigador sénior do The Soufan Center, as negociações para formar uma aliança renovada começaram no início de 2025. As conversações foram facilitadas, em parte, por al-Ghabass Ag Intalla, uma personalidade influente no seio da FLA, e por Iyad Ag Ghali, o líder Tuaregue do JNIM.
“Estas relações pessoais e tribais foram fundamentais, pois permitiram que antigos rivais negociassem e construíssem uma parceria estratégica,” Nasr escreveu para o grupo de reflexão International Centre for Counter-Terrorism.
Nasr considerou significativos os aspectos ideológicos da aliança, dado que a FLA aceitou uma forma moderada da lei da Sharia nas áreas que controla em conjunto com o JNIM.
“Esta concessão foi essencial para que o JNIM aderisse a qualquer aliança formal,” escreveu Nasr. “No entanto, este acordo pragmático foi possível graças à versão menos brutal da Sharia praticada pelo JNIM, em comparação com outros grupos jihadistas no norte do Mali.”
