O surto de Ébola que teve início no nordeste da República Democrática do Congo há cerca de quatro meses tinha contaminado mais de 6.000 pessoas e causado a morte de quase 3.000 até ao final de Agosto, à medida que o vírus se espalhava para a sexta província do país.
O surto é agora considerado o que mais rapidamente cresceu até à data na RDC, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), embora a verdadeira extensão do surto não seja conhecida. Foi declarado a 15 de Maio, mas a OMS afirma que a sequenciação revelou que teve início em Fevereiro. O surto de Ébola na África Ocidental causou a morte de 11.325 pessoas entre 2014 e 2016.
Tom Fletcher, subsecretário-geral das Nações Unidas para os assuntos humanitários e coordenador da ajuda de emergência, observou que o surto está a alastrar-se, numa altura em que quase 11 milhões de pessoas já necessitam de apoio no meio de profundas crises humanitárias já existentes, incluindo desnutrição, insegurança alimentar aguda e conflitos em curso que limitam o acesso da ONU.
“Precisamos de uma operação sustentada e em grande escala que se antecipe ao vírus,” Fletcher recomendou numa reunião virtual a 1 de Setembro. “Maior capacidade de tratamento. Mais equipas de sepultamento seguras e dignas. Melhor acesso para os trabalhadores humanitários e para os suprimentos. Não podemos combater o Ébola isoladamente. As pessoas precisam de serviços de saúde que funcionem, água potável, saneamento, alimentos, protecção e meios de subsistência. Acima de tudo, precisam de confiança.”
As autoridades de saúde afirmaram que cerca de 70% dos novos casos são registados fora das áreas onde se realiza o rastreamento de contactos e que a doença se está a propagar rapidamente. O rastreamento de contactos ajuda a identificar precocemente as pessoas expostas ao vírus, para que possam ser tratadas rapidamente caso apresentem sintomas, que incluem febre elevada, dor de cabeça intensa, perda de apetite, dores musculares e articulares, dor de garganta e fadiga extrema.
“Estamos a perseguir o vírus; o vírus está à nossa frente,” o Dr. Mohamed Yakub Janabi, director regional da OMS para África, disse numa reportagem da The Associated Press.
O Ébola é altamente contagioso e pode ser contraído através de fluidos corporais, como sangue, sémen ou vómito, e de superfícies contaminadas. Uma campanha de vacinação teve início a 27 de Agosto em Kisangani, capital da província de Tshopo, onde o pessoal de saúde e outros trabalhadores na linha da frente da resposta do país receberam a primeira de 50.000 doses. Outras 20.000 doses estão destinadas a um ensaio clínico.
“Decidimos utilizar a vacina Ervebo, cuja eficácia já foi comprovada, para proteger, em primeiro lugar, aqueles que estão na linha da frente — os nossos profissionais de saúde,” o Ministro da Saúde da RDC, Dr. Samuel-Roger Kamba, disse numa reportagem da AP. “Mas também para, em seguida, passarmos às pessoas que tiveram contacto significativo com doentes, para que possamos protegê-las igualmente e, finalmente, se tudo isto for formalmente confirmado, iremos alargar a campanha de vacinação para incluir todos os indivíduos em risco.”
Não há garantias de que a vacina venha a travar a propagação do vírus. O surto actual é alimentado pela estirpe Bundibugyo, e a Ervebo está aprovada contra a estirpe Zaire. No dia 31 de Julho, um Grupo Consultivo Técnico da OMS citou três estudos publicados desde o início do surto que demonstraram alguma capacidade da Ervebo para estimular uma resposta ao vírus Bundibugyo. Estes estudos foram citados como motivos para testar a eficácia da Ervebo contra o vírus Bundibugyo.
Estão a ser desenvolvidas outras três vacinas para combater o vírus Bundibugyo. A Iniciativa Internacional para a Vacina contra a SIDA (IAVI), a Universidade de Oxford e a empresa farmacêutica Moderna estão a liderar os esforços para as desenvolver.
A IAVI está a trabalhar numa versão modificada da vacina contra o vírus do Zaire. Foi testada em macacos e proporcionou quase 100% de protecção, segundo noticiou a BBC. Os cientistas da Universidade de Oxford estão a desenvolver a sua própria tecnologia de vacinas, e a Moderna está a utilizar a tecnologia de ARNm que empregou para desenvolver rapidamente as vacinas contra a COVID-19.
“Agiremos com urgência e rigor científico para apoiar a resposta e ajudar a aproximar uma potencial vacina às comunidades que mais precisam dela,” Stéphane Bancel, PCA da Moderna, disse à BBC.
A Coligação para Inovações em Preparação para Epidemias está a financiar cada um destes grupos.
“Uma vacina contra o vírus de Bundibugyo poderia ajudar a controlar esta epidemia e a reforçar a preparação para futuros surtos,” o Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, director-geral da OMS, disse à BBC.
