EQUIPA DA ADF
Nos últimos dois anos, foram descobertos fabricantes de metanfetamina fornecidos por cartéis de droga mexicanos que operam em vários laboratórios de droga em África.
Várias detenções, incluindo a maior apreensão de metanfetamina de sempre na Nigéria, em Maio, ocorrem numa altura em que os cartéis mexicanos de Sinaloa e da Jalisco Nova Geração expandem as suas operações ao abrigo de um modelo de negócio do tipo franquia. Os cartéis são acusados de financiar terroristas continentais, grupos armados e grupos criminosos que os ajudam a produzir e a transportar as drogas.
“A relação entre os cartéis, o consumo de drogas e o terrorismo é muito, muito simples,” o especialista nigeriano em crime organizado, Faisal Sanusi Ibrahim, disse à agência noticiosa Deutsche Welle (DW). “Os terroristas dão protecção aos cartéis, enquanto os cartéis fornecem financiamento aos terroristas. Temos fronteiras porosas. Temos uma grande parte das florestas sem controlo. Temos também uma situação em que existe mão-de-obra barata … e ainda a rota transatlântica para o transporte marítimo.”
As autoridades nigerianas apreenderam precursores químicos e drogas no valor de 363 milhões de dólares quando realizaram uma rusga a um laboratório clandestino de escala industrial numa área densamente florestada no Estado de Ogun, em meados de Maio.
“O volume do que foi recuperado aqui é suficiente para causar muitos problemas — problemas de saúde pública, desafios de segurança, não só na … Nigéria, mas na sub-região,” Femi Babafemi, director de comunicação social e sensibilização da Agência Nacional de Combate ao Tráfico de Drogas da Nigéria (NDLEA), disse à DW.
Em Junho, a NDLEA descobriu outro laboratório de metanfetamina numa zona florestal do Estado de Oyo e deteve cinco suspeitos, incluindo um cidadão mexicano. O presidente da NDLEA, Mohamed Buba Marwa, descreveu as instalações como “um centro de produção de metanfetamina sofisticado, à escala industrial, gerido por um sindicato criminoso transnacional altamente organizado.”
Os fabricantes mexicanos de metanfetamina operam na Nigéria desde 2016, mas as recentes detenções locais e as importantes apreensões de metanfetamina no Quénia e na África do Sul — áreas que, historicamente, têm sido utilizadas como centros de trânsito de drogas — mostram que os cartéis estão, cada vez mais, a enviar os seus próprios químicos para produzir metanfetamina.
De acordo com o grupo de reflexão InSight Crime, a indústria mexicana de metanfetamina tornou-se mais sofisticada nas últimas duas décadas, e o país produz uma das metanfetaminas mais puras a nível mundial. Isso torna os produtores mexicanos de metanfetamina parceiros atraentes para as redes criminosas, segundo Jason Eligh, especialista sénior da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC).
“É provável que tenha havido um contacto inicial [entre actores criminosos mexicanos e de África] que tenha alterado significativamente a produção, dado que o modelo de produção mexicano é superior ao modelo que existia anteriormente em África,” Eligh disse à InSight Crime.
Nos últimos anos, os cartéis mexicanos expandiram as suas operações de metanfetamina para a África do Sul, considerada um dos maiores mercados consumidores mundiais de metanfetamina cristalina. Isso ficou patente em Julho de 2024, quando dois cidadãos mexicanos foram detidos num laboratório de metanfetamina à escala industrial, numa quinta em Groblersdal, uma pequena localidade da província de Limpopo. As autoridades descobriram grandes quantidades de precursores químicos com um valor estimado no mercado de 2 bilhões de rands (122 milhões de dólares).
Esta foi uma das maiores apreensões de droga de sempre na África do Sul e precedeu mais três grandes apreensões de metanfetamina envolvendo cidadãos mexicanos nos 18 meses seguintes.
“Todos esses laboratórios estão localizados em áreas bastante remotas; poucas pessoas chegam lá, não há muitos olhos curiosos,” Willem Els, especialista no combate ao terrorismo, no Instituto de Estudos de Segurança, disse à ADF. “Nestas áreas, eles comprometem os proprietários [dos imóveis]. Vimos que prenderam alguns destes mexicanos na fronteira com o Botswana e obtiveram informações de que um cidadão nigeriano no Botswana está a organizar a vinda de cozinheiros mexicanos do cartel de Sinaloa e de outros cartéis que estão a diversificar-se, para depois os colocarem nestes laboratórios clandestinos. Normalmente, ficam lá entre um e quatro meses, e depois vão fazendo a sua rotação.”
O cartel de Sinaloa tem tentado expandir as suas operações na África do Sul para países vizinhos. Em Moçambique, as autoridades detiveram três pessoas, incluindo dois cidadãos mexicanos, em Abril de 2026, no Aeroporto Internacional de Maputo. As autoridades afirmaram que o cartel pretendia estabelecer-se na província de Maputo.
O papel crescente do Quénia na produção mexicana de metanfetamina foi destacado em Setembro de 2024, quando as autoridades detiveram seis pessoas, incluindo um membro do CGNJ, na zona rural perto de Namanga, uma comunidade na fronteira com a Tanzânia. Embora remoto, o laboratório de Namanga situava-se ao longo de rotas tradicionais de tráfico e tinha fácil acesso a portos marítimos e aeroportos no Quénia, na Tanzânia e no Uganda, Eligh disse à ADF no ano passado.
