EQUIPA DA ADF
Em Junho, soldados do Mali e do Níger concluíram a formação de forças especiais em Isparta, na Turquia, tornando-se o mais recente exemplo da crescente influência das forças armadas turcas em África.
Ao longo da última década, a Turquia expandiu a sua presença no continente através da formação e da venda de armas. O chamado “modelo da Somália” deve o seu nome à chegada da Turquia a Mogadíscio em 2017 para ajudar as forças armadas somalis a combater o al-Shabaab. O Camp TurkSom, na Somália, que inclui uma academia de formação, é a maior base militar da Turquia no estrangeiro.
A influência da Turquia cresceu rapidamente após a sua intervenção na Líbia, entre 2019 e 2020, ao lado do governo internacionalmente reconhecido em Trípoli contra as forças militares apoiadas pela Rússia, baseadas no leste do país.
O sucesso da tecnologia turca de drones na Líbia tornou Ancara um parceiro muito procurado, segundo Nebahat Tanrıverdi Yaşar, analista de segurança do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança.
Nos anos que se seguiram, a Turquia vendeu os seus drones Bayraktar TB2 e Akinci a países que vão de Angola à Tunísia. Mas o valor dos acordos de segurança da Turquia em África vai muito além da venda de armas, Yaşar disse à ADF num e-mail.
“O âmbito destes acordos, incluindo os relacionados com a formação militar, estende-se muito além da formação táctica, abrangendo a estrutura organizacional, a logística, a inteligência militar, a cooperação na indústria de defesa e o reforço das capacidades profissionais,” escreveu. “Em comparação com vendas pontuais de armas, esta abordagem cria relações mais profundas e duradouras.”
Na Somália, por exemplo, a Turquia tem centrado grande parte da sua formação em oficiais subalternos, alguns dos quais estão a aprender a língua turca.
“Se investirmos na formação da próxima geração das forças de segurança somalis, criaremos laços duradouros para o futuro,” Omar Mahmood, analista para a África Oriental do International Crisis Group, disse à Radio France Internationale.
A Turquia tem embaixadas em quase todos os países do continente africano. Estabeleceu uma base de drones no leste do Chade em 2024 e mantém uma presença militar na Líbia para apoiar o governo de Trípoli.
No Chade, as forças armadas turcas operam uma base de drones na base militar de Abéché, perto da fronteira com a Líbia. A base tinha anteriormente servido de quartel a tropas francesas, que a abandonaram em 2024. A Turquia preencheu de forma semelhante a lacuna de segurança no Sahel depois de os líderes das juntas militares do Burquina Faso, do Mali e do Níger terem posto fim às suas relações com as forças armadas francesas e norte-americanas.
Nessa posição, a Turquia oferece uma alternativa ao padrão da NATO ao Africa Corps da Rússia, que tem sido acusado de violações generalizadas de direitos humanos nos três países do Sahel, no âmbito da luta contra grupos terroristas e insurgentes.
“A formação é extremamente valiosa para a Turquia, porque estabelece algo que a mera venda de armas não consegue: relações institucionais de longo prazo,” Yaşar disse à ADF. “Os oficiais recebem formação em instituições turcas, as forças armadas estrangeiras familiarizam-se com a doutrina e o equipamento militares turcos e Ancara obtém acesso sustentado aos sectores de segurança dos seus parceiros.”
Essa relação cria o que Yaşar descreve como “um ecossistema institucional” centrado na tecnologia turca. Trinta fabricantes turcos do sector da defesa participaram na Exposição Internacional de Defesa e Segurança de Bamako, no Mali, em 2025.
“Tendo acumulado uma vasta experiência em operações antiterroristas, a Turquia destaca-se na integração orgânica de informações de inteligência obtidas através de drones e de capacidades de ataque de precisão com forças especiais, unidades de comando e outros elementos de combate terrestre,” Yaşar disse à ADF.
A abordagem “sem condições” do modelo da Somália atrai governos, como os do Sahel, que procuram maior autonomia. No entanto, isso levou a críticas à política da Turquia, particularmente depois de os seus drones terem sido utilizados tanto contra civis como contra rebeldes na Etiópia e no Sudão.
“Existe, portanto, uma tensão no seio do modelo turco,” Yaşar disse à ADF. “Reforçar a capacidade do Estado sem reforçar simultaneamente a prestação de contas pode reproduzir problemas de governação existentes ou mesmo aumentar a capacidade coerciva à disposição dos governos.”
