As Forças Armadas do Sudão poderão estar a utilizar e a armazenar armas químicas à base de cloro para emprego contra as rivais Forças de Apoio Rápido na guerra civil em curso no país, de acordo com novas reportagens.
Documentos, vídeos e comunicações interceptadas parecem descrever um programa de fabrico de munições à base de cloro, com reservas que ascendem a centenas, de acordo com órgãos de comunicação social, incluindo o The New York Times e o The Washington Post. O material analisado parece mostrar armas a serem desenvolvidas e testadas numa fábrica.
Mark Albon, antigo chefe da unidade de investigação da Organização das Nações Unidas para a Proibição de Armas Químicas na Síria, disse num painel em Setembro que há “todos os motivos para acreditar” que pelo menos um ataque com armas químicas já tenha ocorrido no Sudão. Disse que as provas mais contundentes apontam para um ataque em Setembro de 2024 na refinaria de Al-Jaili, a norte de Cartum, de acordo com o The National, um órgão de comunicação social do Médio Oriente.
Há meses que circulam relatos de guerra química na região.
“O uso de armas químicas representa um novo ponto baixo num conflito em que ambos os lados têm sido acusados de cometer crimes de guerra em grande escala,” relatou a Associação de Controlo de Armas em Janeiro. “O exército é o único grupo armado no Sudão com capacidade militar aérea para levar a cabo tais ataques. Tácticas semelhantes foram empregues pelas forças militares do antigo ditador Bashar al-Assad durante a guerra civil na Síria.”
A guerra civil sudanesa teve início em Abril de 2023 entre as Forças Armadas do Sudão (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), de carácter paramilitar. A divisão não é de natureza ideológica; trata-se de uma luta pelo poder, que tem sido descrita como uma “guerra que se auto-alimenta” pelo controlo do ouro e de outros recursos do país. As SAF controlam grande parte do norte e do leste, enquanto as RSF controlam vastas áreas do oeste, incluindo Darfur.
Ambos os lados têm sido acusados de atrocidades, tais como violações, assassinato de crianças e violência étnica dirigida contra comunidades não árabes. A ONU afirma que a guerra provocou a deslocação de mais de 13 milhões de pessoas, acrescentando que uma campanha das RSF em Darfur, no ano passado, apresentava “as características definidoras de um genocídio.”
As autoridades sudanesas, incluindo o governante do país, o General Abdel-Fattah al-Burhan, negaram que o governo tenha desenvolvido ou utilizado armas químicas. Afirmam que continuam empenhados no cumprimento das disposições da Convenção sobre Armas Químicas, um tratado de 193 países assinado em 1999.
O The Post relatou ter examinado arquivos que incluem documentos elaborados por oficiais militares sudaneses que se referem a munições de “duplo efeito” cheias de “gás asfixiante.” Os vídeos, segundo o The Post, mostram testes de armas que produzem nuvens de vapor verde-amarelado. Notas militares indicam que as forças de segurança do país acumularam um stock de até 290 munições químicas. O The Post afirma ter examinado provas que demonstram que o Sudão estava a desviar carregamentos de cloro destinados ao abastecimento de água potável, a ocultar locais de produção de ogivas em bases militares, a testar bombas em locais remotos do deserto e a elaborar listas de alvos onde o gás tóxico poderia penetrar nas defesas inimigas.
O The Times descreveu como e por que razão as forças armadas do Sudão desenvolveram e produziram armas químicas ao longo de seis meses em 2024. As provas, segundo o The Times, incluem planos de bombas, detalhes de um aparente esforço para encobrir o projecto após a sua descoberta pelos Estados Unidos e “uma sugestão de que parte do cloro utilizado para fabricar as bombas provinha de um centro civil de tratamento de água que recebia o produto químico de organizações de ajuda internacional.”
As SAF poderão ter recorrido a armas químicas logo no início da guerra. Em meados de 2024, as SAF tinham perdido a maior parte de Cartum, com combatentes das RSF profundamente entrincheirados na cidade. Em Julho desse ano, o Brigadeiro-General Tariq Hussain, do Exército sudanês, criou uma fábrica que montava protótipos de bombas de cloro, segundo noticiou o The Times. No dia 22 de Julho, um avião de carga descolou do aeroporto de Merowe, a cerca de 300 quilómetros a norte de Cartum, para testar as armas à base de cloro.
“O teste correu a 100 por cento,” escreveu Hussain mais tarde, acrescentando um vídeo de uma explosão no deserto, segundo o The Times. “Caiu sobre o alvo e libertou o gás.”
O gás cloro foi utilizado pela primeira vez como arma na Primeira Guerra Mundial, mas as armas químicas de todos os tipos estão agora proibidas, visto que são impossíveis de controlar e de direccionar com precisão. Podem também causar danos permanentes. O Comité Internacional da Cruz Vermelha afirma que as proibições existem porque “fabricar e utilizar uma arma que impeça as pessoas de respirar, de utilizar o ar, era considerado demasiado horrível e prejudicial.”
O cloro está amplamente disponível e é utilizado em todo o mundo para purificar água, tratar águas residuais e fabricar plásticos, papel e outros materiais. Embora sejam fáceis de obter, o cloro líquido e o cloro gasoso são extremamente corrosivos. O armazenamento, o transporte e a montagem de mecanismos de lançamento para utilizar o cloro em armas exigem materiais especiais resistentes a produtos químicos, a fim de evitar fugas prematuras ou falhas catastróficas.
