Os drones tornaram-se uma ferramenta de vigilância muito procurada e uma arma de eleição, com 34 países africanos a operarem programas de drones. No entanto, um novo relatório sugere que a falta de formação e supervisão adequadas transforma os drones numa ameaça para os civis, que podem ser confundidos com alvos militares.
De acordo com uma reportagem da organização noticiosa nigeriana sem fins lucrativos HumAngle, a corrida à aquisição de drones equipados com IA está a deixar um rasto devastador de vítimas civis.
“Diz-se que as armas são precisas, mas as provas demonstram que a sua utilização tem colocado civis em perigo,” a HumAngle reportou num estudo recente.
Nos últimos cinco anos, mais de 900 civis morreram em ataques com drones porque os sistemas de IA ou os operadores os confundiram com alvos inimigos, segundo analistas.
No cerne do problema está a falta de formação aprofundada.
“Parece não haver qualquer indício de programas de formação para muitas forças armadas africanas, particularmente no Níger, no Burquina Faso, no Mali e na Etiópia,” relatou a HumAngle.
Embora as forças armadas recebam formação sobre os princípios básicos da operação de drones, por exemplo, há pouca formação sobre as questões mais complexas de avaliação situacional e disciplina de missão que ajudam os operadores a avaliarem o que os investigadores descrevem como “situações ambíguas do mundo real” que podem conduzir a erros mortais envolvendo civis.
Os especialistas consultados pela HumAngle argumentam que a corrida para utilizar drones semiautónomos ultrapassou os quadros jurídicos, os mecanismos de segurança para confirmar alvos e a formação entre as tropas terrestres e os operadores de drones. Muitas forças armadas continuam a utilizar quadros e procedimentos desactualizados, concebidos para veículos aéreos tripulados.
“A implementação desta tecnologia é o caminho a seguir para qualquer país que se preze,” Adejoh Sunday, professor sénior da Academia de Defesa da Nigéria, disse à HumAngle. “Mas temos de garantir que aqueles que utilizam esta tecnologia recebem formação adequada. Se esses profissionais [militares] estiverem bem treinados, agirem com profissionalismo e compreenderem a ética envolvida na utilização desta tecnologia, não haverá motivo para alarme.”
No seu relatório de 2025, intitulado “Death on Delivery,” a Drone Wars UK detalhou 943 mortes de civis decorrentes de ataques com drones entre 2021 e 2024. Os países do Sahel ocuparam um lugar de destaque nesse relatório, tal como a Etiópia, que, por si só, foi responsável por centenas de mortes de civis resultantes de ataques com drones mal direccionados nas regiões de Amhara e Oromia.
“A guerra com drones tem sido a marca distintiva das campanhas militares etíopes contra os insurgentes no eixo de Amhara,” observaram os investigadores da HumAngle. Os drones desempenharam um papel fundamental na luta do governo etíope contra os rebeldes na região do Tigré. O governo tem vindo a combater, desde 2023, uma milícia de etnia Amhara conhecida como Fano, bem como separatistas em Oromia e noutras regiões.
As forças armadas etíopes têm um historial de mortes acidentais de civis em ataques com drones que raramente são reconhecidos ou investigados, de acordo com a reportagem da HumAngle.
Os investigadores da HumAngle citaram um desses ataques que devastou um mosteiro na Zona de Wollo do Sul, em Amhara, matando duas freiras e ferindo outras 11 pessoas numa comunidade remota onde era difícil obter assistência médica.
Oleksandra Molloy, analista de operações com drones e investigadora da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, disse à HumAngle que os países devem dar prioridade a uma formação adequada para ajudar a evitar danos civis.
“A eficácia da utilização dos drones depende em grande medida das competências e da experiência dos seus operadores,” afirmou Molloy. “Por conseguinte, a formação e a educação contínuas são essenciais para garantir um elevado nível de competência na operação e utilização de drones.”
