Os rebeldes Houthis do Iémen estão a enviar armas através do Mar Vermelho e a partilhar tecnologia e conhecimentos com grupos armados de uma forma que poderá perturbar o panorama de segurança da África Oriental, revela um novo relatório.
O relatório de 41 páginas, datado de Agosto de 2026, intitulado “Do Raio ao Centro: Os Houthis em África,” elaborado pelo grupo de reflexão apartidário Century International, detalha o “esforço multifacetado dos Houthis para expandir a sua presença e influência ao longo da costa africana do Golfo de Áden e do Mar Vermelho.”
“Desde o início da década de 2020, tanto de forma independente como em colaboração com o Irão, o grupo iemenita consolidou-se como um interveniente-chave no comércio ilícito no Iémen e na região vizinha; recrutou migrantes de países africanos para actuarem como contrabandistas, espiões e soldados; e estabeleceu laços não só com o al-Shabaab, mas também com facções islamistas no seio das Forças Armadas do Sudão (SAF),” lê-se no relatório.
As interacções com a filial da al-Qaeda na Somália representam uma ameaça grave caso o grupo terrorista venha a obter armamento avançado dos Houthis, como explosivos de tipo iraniano, mísseis antiaéreos e drones. Ainda mais perigosa seria a evidência de que o al-Shabaab tivesse “adquirido os conhecimentos necessários para modificar, montar ou, eventualmente, fabricar drones localmente,” Alex Jalil, investigador do Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED), disse à revista The Africa Report para um artigo publicado a 31 de Agosto.
Os Houthis surgiram na década de 1990 sob o nome de Ansar Allah, que significa “Partidários de Deus.” Representam os zaiditas, a seita minoritária muçulmana xiita do Iémen, e afirmam fazer parte do “eixo da resistência” do Irão.”
O grupo ganhou notoriedade mundial ao atacar a navegação comercial no Mar Vermelho, uma acção que, segundo os especialistas, visa mobilizar o apoio interno no seu caótico país de origem. Os ataques causaram estragos na navegação mundial e intensificaram-se recentemente quando os rebeldes assumiram o controlo do porto de Mocha, no Iémen, e de ilhas estratégicas perto do Estreito de Bab el-Mandeb, um ponto de estrangulamento marítimo vital.
O relatório da Century International afirma que a estratégia de expansão dos Houthis assemelha-se à do grupo terrorista libanês Hezbollah, também um representante do Irão. O Hezbollah e a Guarda Revolucionária Islâmica do Irão (IRGC), que responde perante o líder supremo do Irão e apoia grupos militantes em todo o Médio Oriente e em África, “desenvolveram um manual para reforçar as capacidades dos grupos armados,” lê-se no relatório.
Em primeiro lugar, os terroristas são instruídos sobre como conduzir uma guerra de guerrilha. Em seguida, são instruídos a utilizar armamento iraniano avançado para atingir alvos a milhares de quilómetros de distância. “Posteriormente, ensinaram os grupos do Eixo a fabricar as suas próprias armas a partir de peças de origem comercial,” lê-se no relatório.
“As provas são claras: os Houthis, com o apoio da IRGC, construíram uma rede de facilitadores que atravessa o Mar Vermelho ao Corno de África,” Amir Al Bidh, porta-voz do Conselho de Transição do Sul do Iémen (STC), disse ao The National, um site de notícias com sede nos Emirados Árabes Unidos. “O STC apresentou provas tanto aos EUA como ao Reino Unido sobre a relação operacional dos Houthis com o al-Shabab.”
No Sudão, as provas indicam que os Houthis enviaram agentes para ensinar às Forças Armadas do Sudão (SAF) como utilizar e fabricar drones iranianos. Em Julho de 2025, a empresa estatal Military Industrial Corp. apresentou o drone Safaroog, que se assemelha ao drone de ataque de alcance médio e de uso único iraniano Ababil-T. O relatório indica que os projectos dos drones sudaneses e iranianos são praticamente idênticos. A empresa mantém laços estreitos com as SAF, o que poderia “alterar significativamente o curso da guerra civil” no país caso possuísse capacidade de fabrico de drones, segundo noticiou o The National.
Se a mesma tecnologia e capacidade de fabrico de drones fossem transferidas para o al-Shabaab, juntamente com um fornecimento de mísseis antiaéreos iranianos Saqr, as implicações em termos de segurança para a Somália seriam catastróficas.
Responsáveis do al-Shabaab e dos Houthis reuniram-se ao longo de 2024 no Iémen e na Somália. Entre os temas discutidos: a aquisição de drones explosivos pelo al-Shabaab. Ahmed Elmi Samatar, um agente do al-Shabaab capturado em Mukalla, no Iémen, em 2024, confessou ter sido o elo entre os dois grupos.
O relatório da Century International referiu que Samatar “parece ter coordenado a deslocação de um grupo de ‘convidados,’ que proporcionaram aos membros do al-Shabaab formação na fabricação de dispositivos explosivos improvisados (DEI), na modificação de drones e na manutenção de armas.” Afirmou ainda ter organizado a viagem de cerca de 400 somalis para “áreas do Iémen controladas pelos Houthis, para formação militar e ideológica.”
Em troca de armas e formação, os Houthis pretendem, alegadamente, recrutar combatentes na Somália e estabelecer uma presença no país, incluindo a instalação de equipamento de comunicações e vigilância para alargar as suas capacidades regionais em matéria de mísseis e drones.
“Nesta fase, as provas parecem mais sólidas no que diz respeito à formação, à transferência de conhecimentos e ao desenvolvimento de uma relação,” Jalil, do ACLED, disse à The Africa Report. “Mas mesmo que a relação continue a ser de natureza transaccional, penso que nos diz algo importante sobre o rumo que a geopolítica do Mar Vermelho está a tomar.”
Jalil prosseguiu: “A transferência de conhecimentos é, em última análise, muito mais difícil de reverter do que a transferência de armas individuais.”
