EQUIPA DA ADF
Enquanto procura expandir o seu território, a organização terrorista do Sahel, Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin, lança ataques violentos nas zonas fronteiriças de vários países do Golfo da Guiné, com uma excepção: o Gana.
A região norte do Gana, junto a Burquina Faso, é uma zona de fronteiras porosas, fraca presença governamental e elevada insegurança económica. Os residentes de ambos os países atravessam regularmente a fronteira fora dos pontos de passagem oficiais.
Os especialistas designam a fraca presença governamental como uma “lacuna de soberania.” Isso cria um refúgio onde os combatentes do JNIM descansam, recuperam de ferimentos em hospitais locais e reabastecem-se de alimentos e armas. Em seguida, atravessam a fronteira para combater as forças militares e voluntárias no Burquina Faso, no Mali e no Níger e potencialmente lançam ataques no Benin, na Nigéria e no Togo.
Alguns analistas descrevem a abordagem do Gana em relação ao JNIM como um “pacto de não-agressão.” Outros interpretam este acordo como uma tentativa do JNIM de evitar a perda de uma base de retaguarda fundamental, evitando tomar medidas que provocariam uma resposta contundente das forças de segurança ganesas.
”A ausência de ataques reais em solo ganês parece resultar do cálculo do JNIM de não perturbar as linhas de abastecimento e os locais de descanso, bem como de não provocar um exército relativamente forte,” os analistas do Instituto Clingendael, com sede na Holanda, escreveram num relatório de 2024 intitulado “A Beacon of Democracy (Um modelo de democracia)?”
Os críticos observam que a segurança no norte do Gana oscila ao ritmo da conjuntura política, aumentando durante os anos eleitorais e diminuindo nas restantes alturas. As autoridades ganesas afirmam ter optado por uma abordagem destinada a impedir que o norte do Gana se transforme num outro campo de batalha do Sahel.
Na prática, essa abordagem significa que cidades fronteiriças como Hamile e Bawku se tornaram mercados através dos quais os combatentes do JNIM branqueiam gado roubado, tomado à força como pagamento, ou “zakat,” aos residentes das comunidades burquinabês que controlam. O gado resulta numa perda de rendimentos e de nutrição para as famílias rurais burquinabês.
Frederick Appiah Afriyie, fundador do Centro de Segurança Africana e Estudos Estratégicos (CASSS), com sede no Gana, considera a disposição das autoridades ganesas em acomodar o JNIM uma escolha perigosa que deixa o país vulnerável a ataques.
“O risco conceptual da expansão do JNIM tornou-se agora um risco prático e iminente,” Afriyie escreveu recentemente. “A crise que se está a delinear nas fronteiras setentrionais do Gana está a revelar-se um grande teste à segurança nacional e à resiliência democrática do país.”
A complexa combinação de fronteiras porosas, insegurança económica e tensões interétnicas no norte do Gana cria um ambiente propício à exploração pelo JNIM, segundo Afriyie.
No nordeste de Bawku, perto da fronteira com o Togo, por exemplo, uma disputa de liderança que já dura décadas entre os grupos étnicos Mamprusi e Kusasi cria um ambiente que o JNIM pode explorar para semear mais divisão e violência na região, segundo analistas de segurança.
“A dinâmica observada no Sahel proporciona lições importantes para os Estados costeiros,” Jessica Moody, do Índice Global de Terrorismo, escreveu recentemente. “Os grupos jihadistas têm explorado consistentemente as queixas locais e as tensões comunitárias, particularmente entre as comunidades de pastores e de agricultores.”
No entanto, acções de segurança de mão pesada podem levar exactamente ao tipo de apoio ao JNIM que o governo ganês pretende evitar, acrescentou.
O reforço da segurança no norte do Gana deve envolver membros da comunidade para que actuem como “olhos e ouvidos do Estado,” a fim de evitar criar a sensação de ocupação militar, escreveu Afriyie.
Para além disso, as autoridades devem continuar a investir na formação profissional dos jovens da região, como parte de uma estratégia de desenvolvimento económico, e criar uma via para que as comunidades étnicas resolvam as suas divergências através do diálogo, recomendou.
“As lições do Sahel são duras,” escreveu Afriyie. “Não é possível garantir uma segurança duradoura sem uma governação legítima e perspectivas económicas reais.”
