EQUIPA DA ADF
Ao pilotar um drone, o jornalista e realizador de documentários premiado Edem Srem sobrevoa cursos de água poluídos no seu país natal, Gana, para mostrar a dimensão da devastação ambiental causada pela mineração ilegal de ouro, conhecida localmente como galamsey. O terreno está crivado de poços de mineração, grandes e pequenos, cheios de água que parece café com natas espessas.
Srem alerta para o facto de que a galamsey não é apenas um desastre ambiental. Tornou-se também uma perigosa actividade criminosa que ameaça a segurança nacional e regional.
“[A galamsey] sustenta uma economia ilícita em expansão que envolve centenas de milhares de mineiros, financiadores transnacionais, operadores estrangeiros, contrabandistas de ouro, fornecedores de equipamento e intermediários criminosos,” escreveu num relatório de 21 de Julho para o Centro de Estudos Estratégicos de África.
Como principal produtor de ouro do continente, o Gana tem assistido a uma grande expansão da mineração artesanal e de pequena escala de ouro. Com 11 bilhões de dólares em receitas cambiais em 2025, a mineração de pequena escala ultrapassou, pela primeira vez, a produção industrial de ouro do país, que ascendeu a 9 bilhões de dólares.
A maior parte da mineração de pequena escala, no entanto, é ilegal. Cerca de 70% a 80% dos mineiros artesanais não possuem licença, de acordo com dados da Comissão de Minas do Gana, a entidade reguladora do sector mineiro. O governo tem tentado conter a galamsey através da criação de forças-tarefas policiais e do envio de militares.
“No entanto, estas operações recorrentes não conseguem estabelecer um controlo duradouro sobre muitas das áreas afectadas,” escreveu Srem.
As redes de mineração ilegal do Gana tornaram-se interligadas com rotas transfronteiriças de contrabando de ouro, fluxos financeiros ilícitos e actores estrangeiros.
“Isso inclui a entrada em grande escala de operadores, capital e equipamento chineses que acelerou a mecanização do sector nas últimas duas décadas,” escreveu. “Estas dinâmicas transformaram a galamsey de uma actividade de subsistência maioritariamente informal numa economia política paralela que opera cada vez mais fora do alcance da supervisão efectiva do governo.”
Estima-se que 50.000 mineiros chineses ilegais operem com relativa impunidade no Gana, segundo Srem. São apoiados por redes de financiadores, fornecedores de equipamento, refinadores informais e intermediários.
Chris Aston, que lidera um programa apoiado pelo Reino Unido que visa regulamentar a galamsey, disse que os mineiros artesanais estão vulneráveis a gangues do crime organizado, que fornecem financiamento inicial para equipamento, ao contrário de outros credores.
“O pré-financiamento dos mineiros é uma forma através da qual os grupos do crime organizado podem penetrar na cadeia de abastecimento do ouro,” disse à Reuters em 2024. As gangues, por sua vez, “exigem que os mineiros lhes vendam de volta o ouro que extraem a um preço subsidiado.”
Emmanuel Kwesi Aning, do Centro Internacional de Formação de Manutenção da Paz Kofi Annan, em Acra, disse à Reuters que a galamsey também tem alimentado um aumento no tráfico de armas, visto que os responsáveis pelas minas ilegais necessitam de protecção contra ladrões e rivais.
Srem delineou várias formas através das quais o Gana pode reforçar os seus esforços para combater a galamsey: “A aplicação de restrições à participação estrangeira no sector da mineração de pequena escala do Gana, o reforço do controlo das importações de equipamento pesado e das exportações ilícitas de ouro, e a colaboração com as alfândegas, as unidades de informação financeira e os parceiros internacionais para desmantelar o contrabando transfronteiriço e o branqueamento de capitais são vitais para tornar mais difícil às redes criminosas organizadas manter operações de mineração ilegais.”
Os especialistas demonstraram que, para além das suas ligações ao crime organizado transnacional, a galamsey constitui uma ameaça grave para a saúde e o desenvolvimento económico do Gana.
Mais de 60% dos corpos de água do Gana estão poluídos com metais pesados tóxicos, como o mercúrio, e produtos químicos, como o cianeto e o chumbo, segundo Franklin Obiri-Nyarko, investigador científico da Divisão de Águas Subterrâneas do Conselho de Investigação Científica e Industrial – Instituto de Investigação da Água.
“Se olharmos para o estado actual dos nossos recursos hídricos, fica claro que não estamos a fazer o suficiente para proteger este recurso valioso e, daqui para a frente, é necessário tomar medidas urgentes para restaurar de forma sustentável os rios poluídos, a fim de salvar vidas,” disse numa apresentação a 11 de Agosto, segundo o site ganês Graphic Online.
Alhassan Tahiru, investigador especializado em segurança, governação e dinâmicas de conflito em África, disse que a galamsey é um imperativo moral que exige intervenção.
“A mineração ilegal já não é apenas uma questão ambiental,” escreveu num artigo para o site New Security Beat. “A galamsey tornou-se um problema de segurança humana que envenena e destrói as vidas das crianças nas zonas mineiras. Durante a infância, as crianças ganesas destas regiões enfrentam problemas de saúde imediatos e de desenvolvimento a longo prazo que prejudicam o seu presente e põem em risco o seu futuro.”
Este ano, a Sociedade Pediátrica do Gana alertou que a exposição contínua das crianças a toxinas relacionadas com a galamsey conduz a distúrbios comportamentais, atrasos no desenvolvimento da fala, desempenho académico reduzido e risco acrescido de doenças crónicas mais tarde na vida.
“A mineração ilegal (galamsey) representa uma grave ameaça à saúde e ao desenvolvimento cerebral das crianças, com consequências irreversíveis para o futuro do Gana,” disse num comunicado de Fevereiro. “A organização apela aos líderes governamentais a tratarem esta situação como uma emergência nacional que exige acção imediata.”
