EQUIPA DA ADF
As mulheres que vivem sob o jugo dos terroristas do al-Shabaab sofrem abusos, coacção e grave isolamento social. Mas um novo relatório revela que elas também desempenham papéis fundamentais em muitos dos ataques mortíferos do grupo.
Na Etiópia, no Quénia, na Somália, na Tanzânia e no Uganda, as mulheres estão a ser recrutadas ou forçadas a juntar-se ao grupo terrorista, de acordo com o relatório “Women Inside Al-Shabaab (Mulheres do Al-Shabaab),” publicado pela Wargelin Analytica, um grupo de reflexão que estuda o Corno de África.
O relatório revela a dupla identidade das mulheres enquanto vítimas e facilitadoras das operações do grupo. Explica como as mulheres entram no grupo através do casamento ou de laços familiares, antes de se tornarem prisioneiras de um sistema que oferece pouca protecção contra abusos.
O grupo terrorista está sediado na Somália e tem sido descrito como a maior, mais rica e mais letal filial da al-Qaeda no mundo.
O relatório observa que as mulheres no seio do al-Shabaab desempenham agora funções que vão além de meras esposas e cuidadoras. As mulheres tornaram-se “profundamente integradas em quase todas as funções não-combatentes da organização,” de acordo com a Dawan Africa, um serviço noticioso do Corno de África.
Segundo o relatório da Wargelin, as mulheres recrutam novos membros, organizam sessões ideológicas, arranjam casamentos entre jovens mulheres e combatentes e ministram instrução religiosa destinada a reforçar a lealdade. Também gerem esconderijos, transportam armas, recolhem informações, gerem explosivos e trabalham em operações secretas dentro de territórios controlados pelo governo.
As mulheres, segundo o relatório, são usadas em operações de informações, porque levantam menos suspeitas por parte dos agentes de segurança. E embora raramente estejam envolvidas em combate efectivo, têm sido destacadas para missões suicidas.
“As mulheres estão profundamente envolvidas em actividades secretas de facilitação financeira e branqueamento de capitais, incluindo transferências de dinheiro, ocultação de fundos operacionais, utilização de dinheiro móvel, abertura
de contas, facilitação de negócios e mecanismos de ocultação financeira,” lê-se no relatório. Estão também envolvidas em negócios de retalho, comércio de importação e exportação e transacções de ouro, permitindo ao al-Shabaab disfarçar a origem dos seus fundos, ao integrá-los em transacções comerciais comuns.
As mulheres e as raparigas sofrem de forma desproporcional com décadas de conflito armado na Somália, representando 80% da população deslocada, de acordo com a revista Yale Journal of International Affairs. A revista também observa que as mulheres não podem “participar de forma significativa no sector de segurança do país, o que significa que não estão plena, igual e efectivamente envolvidas nos processos de tomada de decisão que afectam a paz e a segurança.”
O al-Shabaab recruta e trafica mulheres e raparigas do Quénia, do Uganda e da Somália, de acordo com relatos de entrevistas da Al Jazeera. Geralmente, essas mulheres e raparigas possuem entre 12 e 18 anos, com algumas excepções caso tenham estudado. Em contrapartida, os homens geralmente possuem entre 30 e 60 anos ou mais. As viúvas que necessitam de apoio e protecção, muitas vezes, consentem de forma plena em trabalhar para o grupo.
A vida das mulheres dentro da organização é opressiva. Não podem sair sem a companhia de homens. Não lhes é permitido trabalhar fora para sustentar as suas famílias. Os códigos de vestuário obrigatórios exigem que cubram o rosto, as mãos e os pés. Têm de frequentar aulas de religião obrigatórias, “que lhes ensinam que o al-Shabaab é o grupo incorruptível e que as mulheres têm uma grande responsabilidade em ensinar a futura geração a obedecer e a contribuir para o grupo,” relatou a organização de comunicação social The Migration News.
“As mulheres são forçadas a servir o grupo através de intimidação, tortura e prisão,” relatou a The Migration News. “Ao abrigo de leis extremas, se as mulheres não usarem as vestes obrigatórias, não frequentarem as aulas de religião ou saírem sem a companhia de homens, são executadas no local, ou brutalmente espancadas, torturadas e presas.”
Para muitas mulheres, não há volta a dar ao al-Shabaab. A Agência da União Europeia para o Asilo relata que as mulheres que abandonam o grupo podem enfrentar exploração sexual e punições nas suas novas vidas. As antigas membros podem ser “alvo de ataque” pelas forças de segurança do governo, estigmatizadas e excluídas das comunidades, tornando-se “altamente vulneráveis à pobreza extrema,” relata a agência da UE. Se as mulheres tentarem regressar ao al-Shabaab, “provavelmente serão executadas como traidoras.”
