Novas reportagens sobre mercenários colombianos na guerra civil do Sudão mostram como forças externas prolongaram o conflito e minaram a estabilidade regional.
Com a ajuda de uma milícia líbia chamada Batalhão Subul al-Salam, o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF) do Sudão utilizou o sul da Líbia como corredor de trânsito, base de apoio e centro de operações de retaguarda na sua guerra contra as Forças Armadas do Sudão (SAF).
O Batalhão Subul al-Salam, que está associado ao Exército Nacional da Líbia, facilitou a transferência de recrutas, incluindo mercenários colombianos, armas e combustível através da fronteira para apoiar as RSF, de acordo com um relatório de 19 de Abril elaborado por um Painel de Peritos das Nações Unidas sobre a Líbia.
“O Painel concluiu que Subul al-Salam esteve envolvido em várias fases da cadeia de abastecimento das Forças de Apoio Rápido,” lê-se no relatório. “Subul al-Salam exerceu controlo funcional sobre componentes-chave de logística, segurança e facilitação necessários para sustentar o transporte de combatentes, combustível, armas e material relacionado, incluindo veículos militarizados.”
Os peritos afirmaram que, em 2025, as RSF utilizaram uma base de retaguarda na Líbia controlada por Subul al-Salam para coordenar operações logísticas a partir do território líbio, aceder à Base Aérea de Maateen al-Sarrah e utilizar a Base Aérea de al-Kufra, que “serviu tanto como pontos de trânsito para combatentes colombianos como locais para a modificação de veículos importados através da Líbia.”
Mercenários colombianos fornecidos pelos Emirados Árabes Unidos (EAU) prestaram apoio militar crucial às RSF e participaram no terrível cerco de El-Fasher, no Darfur do Norte, em Outubro de 2025, de acordo com um relatório de Abril de 2026 da organização de análise de segurança, Conflict Insights Group.
“Esta é a primeira investigação em que podemos provar com certeza o envolvimento dos EAU,” o director-geral Justin Lynch disse à BBC para um artigo de 22 de Abril. O relatório do grupo “mostra mercenários envolvidos com drones a viajar de uma base dos EAU para o Sudão antes da tomada de El-Fasher pelas RSF.”
Desde 2024, foram destacados para o Sudão cerca de 380 mercenários colombianos, de acordo com o La Silla Vacía, um site de notícias sediado em Bogotá, na Colômbia. Os mercenários, conhecidos como Lobos do Deserto, estavam associados a uma empresa sediada nos EAU com ligações documentadas a altos funcionários do governo dos Emirados, concluiu o relatório. Os Emirados Árabes Unidos negaram repetidamente as acusações de grupos internacionais de que prestam apoio às RSF.
A brigada Lobos do Deserto, composta por quatro companhias de militares colombianos reformados, terá servido as RSF como pilotos de drones, artilheiros e instrutores, incluindo “o treino de crianças-soldados.” Num relatório de Fevereiro de 2026, a ONU afirmou que as forças das RSF cometeram “atrocidades generalizadas que constituem crimes de guerra e possíveis crimes contra a humanidade.”
Lynch afirmou que o relatório do seu grupo concluiu que a rede de mercenários colombianos apoiada pelos EAU “partilha a responsabilidade por estes resultados. A dimensão das atrocidades e do cerco em el-Fasher não teria ocorrido sem as operações com drones realizadas pelos mercenários.”
Na Líbia, Subul al-Salam “apoiou directamente” as operações armadas das RSF através da mobilização de unidades, do fornecimento de recrutas estrangeiros e da escolta de facções afiliadas às RSF em todo o território líbio. As RSF mantiveram-se presentes na Líbia durante o período abrangido pelo relatório dos peritos da ONU, de Outubro de 2024 a Fevereiro de 2026, o que resultou em confrontos armados com as SAF na Líbia em Junho de 2025.
Com o objectivo de interromper a rota de abastecimento das RSF, as SAF lançaram, em Novembro de 2025, ataques aéreos que visaram transportes de veículos e combatentes estrangeiros em trânsito da Líbia para o Sudão.
Ismail Jibril Tisso, um proeminente investigador e autor sudanês, disse que o sudeste da Líbia se tornou um corredor aberto para a guerra.
“A Líbia passou de ser meramente um Estado vizinho para se tornar um nó central numa rede de abastecimento transnacional, alimentando o conflito no Sudão com combatentes estrangeiros e equipamento militar no meio de uma economia de guerra em crescimento,” escreveu numa análise de 5 de Abril para a revista Sudanow Magazine.
“Enquanto o conflito se expande, o desafio fundamental continua a ser se os Estados e a comunidade internacional conseguirão conter estas redes e restaurar a segurança regional — antes que toda a região se transforme num teatro aberto de conflito sem fim.”
