Numa altura em que as forças armadas africanas exploram cada vez mais a IA para reforçar as suas capacidades, os especialistas afirmam que é crucial ter em conta que o elemento mais importante em qualquer sistema de IA é o elemento humano.
“O ser humano deve manter-se sempre no centro das coisas — a par de tudo,” o Coronel Abdel-Aziz Fall, comandante da Escola de Formação do Corpo de Transmissões das Forças Armadas do Senegal, disse num webinar recente organizado pelo Centro de Estudos Estratégicos de África.
Fall e a especialista em combate ao terrorismo, Niccola Milnes, da NVM Consulting, partilharam os seus conhecimentos durante o webinar “Inteligência Artificial no Combate ao Terrorismo.”
“Temos de compreender que a IA é uma ferramenta,” aconselhou Fall. “Ajuda-nos na tomada de decisões, mas não é ela que toma a decisão final.”
No cerne da discussão sobre IA e combate ao terrorismo está a ideia de que a IA é uma ferramenta poderosa para analisar rapidamente quantidades massivas de dados, mas depende de seres humanos que possuam tanto as competências como o conhecimento necessários para escrever algoritmos e agir com base nos resultados da análise da IA.
“A IA nunca substituirá as pessoas,” sentenciou Fall. “As pessoas que sabem aplicar estas competências terão uma vantagem face aos adversários.”
A força actual da IA reside na análise de imagens e no reconhecimento de padrões, de acordo com Milnes. Essas capacidades também podem ajudar os utilizadores humanos a prever acções que os grupos terroristas possam vir a tomar no futuro. Grande parte desses dados de vigilância provém de drones lançados para detectar grupos terroristas quando estes se deslocam pelo terreno.
“Conseguimos identificar actividades que nunca teríamos identificado sem esses drones,” explicou Fall. “Há valor na rápida transformação de dados em informações úteis.”
Mesmo enquanto os governos utilizam a IA contra grupos terroristas, esses mesmos grupos estão, da mesma forma, a utilizar a IA para os seus próprios fins. Durante um ataque recente a um posto militar maliano em Severé, por exemplo, o JNIM parece ter utilizado drones em voo estacionário e IA para recalibrar rapidamente os seus alvos, segundo analistas. O ataque matou soldados malianos e mercenários do Africa Corps da Rússia.
O JNIM também parece estar a utilizar a IA para elaborar a propaganda que publica nas redes sociais.
Drones, satélites e outras tecnologias permitem que os governos recolham vastas quantidades de dados de todos os tipos. O primeiro passo na implementação da IA para a análise de dados é compreender os dados de que o governo dispõe e a capacidade actualmente existente para lhes dar sentido, de acordo com Milnes.
Enquanto as forças armadas recolhem dados, é também vital que mantenham o controlo sobre os mesmos, tanto quanto possível. Isso significa desenvolver os seus próprios sistemas digitais para os armazenar e analisar sempre que possível. A utilização de software estrangeiro ou de tecnologia proprietária de outra empresa pode suscitar questões sobre quem é o proprietário desses dados, disse Milnes.
“Os governos precisam de dar prioridade à soberania sobre os seus dados,” recomendou.
As capacidades desenvolvidas localmente permitirão aos países africanos responder rapidamente a incidentes no terreno, em vez de terem de esperar por uma resposta de uma empresa tecnológica estrangeira, acrescentou.
“Se surgir um problema no terreno, este tem de ser resolvido imediatamente,” afirmou Milnes. “Não há tempo para esperar pela aprovação dos superiores.”
O desenvolvimento de capacidades locais de IA é um elemento fundamental para manter os dados seguros. Isso também pode simplificar o processo de aquisição, enquanto se estabelece uma colaboração com empresas de tecnologia locais, segundo Milnes.
É por isso que o primeiro desafio de qualquer projecto de IA é garantir que as pessoas tenham as competências necessárias para o gerir adequadamente, de acordo com Fall.
“Sem as competências necessárias, pode-se ter a melhor plataforma, mas ela não lhe servirá de nada,” afirmou Fall. “Não podemos simplesmente comprar tecnologia que não compreendemos.”
