Numa altura em que os drones ganham importância nas operações militares, os empresários africanos do ramo tecnológico querem demonstrar que são capazes de construir uma indústria adaptada às necessidades específicas do continente.
“Estamos agora numa corrida ao armamento tecnológico contra os terroristas,” Nathan Nwachuku, co-fundador e PCA da Terra Industries, sediada na Nigéria, disse aos líderes militares na recente conferência dos Chefes de Defesa Africanos, realizada em Luanda, Angola. “Não podemos continuar a depender de caças de vários milhões de dólares para eliminar combatentes em motorizadas de 2.000 dólares.”
Fundada em 2024, a Terra Industries fabrica drones aéreos e terrestres em Abuja, na Nigéria. Recentemente, anunciou planos para se expandir para uma nova unidade em Acra, no Gana, que, segundo os responsáveis da empresa, será a maior fábrica de drones do continente, com capacidade para produzir 50.000 drones por ano.
“A fábrica é a melhor arma,” afirmou Nwachuku.
Nos últimos anos, as forças armadas africanas têm adoptado a tecnologia de drones de fornecedores de fora do continente. A Turquia, fabricante dos drones Bayraktar TB2 e Akinci, tornou-se, sem dúvida, o fornecedor mais proeminente.
Os governos utilizam esses drones importados principalmente para fins de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR). Ao mesmo tempo, porém, enfrentam grupos terroristas como o Boko Haram, o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) e várias ramificações do Estado Islâmico que utilizam drones comerciais prontos a usar (COTS), mais baratos e facilmente disponíveis, para ISR e como explosivos voadores.
A dependência de drones de fabrico estrangeiro deixa os governos africanos dependentes de outros países para actualizações de hardware e software e para reparações, uma situação que pode comprometer a sua soberania, Maxwell Maduka, co-fundador e engenheiro-chefe da Terra, disse ao War on the Rocks.
“Os drones importados da Turquia e da China são baratos e voam bem, mas são difíceis de manter a nível local e não garantem a soberania sobre o software e os dados,” considerou Maduka. “Há também a preocupação com a espionagem: se a sua espinha dorsal de inteligência, vigilância e reconhecimento continuar ligada a esses países e não for possível auditar o firmware, o seu quadro operacional provavelmente não é seguro.”
Embora a Terra Industries conceba os seus drones principalmente para ISR, os fundadores reconhecem que a tecnologia pode ser adaptada a outras utilizações.
“Qualquer fabricante sério sabe que a tecnologia não é hermeticamente fechada,” explicou Maduka. “Por isso, partimos do princípio de que os nossos drones serão utilizados para fins cinéticos defensivos.”
Os defensores do sector tecnológico africano vêem na Terra Industries e noutras start-ups locais a oportunidade de desenvolver tecnologia para africanos, por africanos, expandindo as oportunidades educativas e económicas. O Banco Africano de Desenvolvimento estima que o continente necessitará de 23 milhões de profissionais do ramo tecnológico até 2030.
Nwachuku disse aos líderes de defesa que a sua empresa se inspirou na inovação da Ucrânia na defesa do seu território contra a invasão russa.
“A Ucrânia está a recorrer à sua população com conhecimentos tecnológicos para reforçar a sua frota de drones,” afirmou Nwachuku. “Os sistemas de defesa africanos têm de ser concebidos para os combatentes africanos.”
Numa altura em que as forças armadas africanas colaboram contra ameaças transfronteiriças, como o terrorismo, os líderes têm de garantir que os sistemas de drones e a tecnologia relacionada possam ser amplamente partilhados, recomendou Nwachuku.
Também instou os países africanos a criarem uma rede pan-africana de informações para maximizar a eficácia da tecnologia desenvolvida em África.
“Os parceiros da indústria precisam de criar sistemas abertos que possam ser adaptados e reparados no terreno,” recomendou. “A maioria das nações possui infra-estruturas de segurança exclusivas que necessitam de ajuda para serem actualizadas.”
Maduka disse que os drones de fabrico local são vitais para o futuro do sector de defesa africano, dado que os diversos ambientes do continente — desde o calor e o pó do Deserto do Sahara até à humidade e à densa cobertura arbórea da Bacia do Congo — criam condições que representam um desafio para a tecnologia de fabrico estrangeiro.
O calor degrada as baterias e os computadores de bordo. A poeira infiltra-se e desactiva as peças móveis. A topografia dificulta uma comunicação estável. E o vento obriga os operadores a esforçarem-se mais para manter os drones no alvo.
“Estes drones também são concebidos principalmente para outros tipos de terreno e, depois, vendidos como um kit genérico de difícil manutenção,” Maduka disse ao site War on the Rocks. “Uma única peça avariada pode, literalmente, deixar um drone em terra durante meses, se não houver apoio ou peças sobressalentes no próprio país.”
