O trabalho russo em seis bases aéreas líbias demonstra que Moscovo está a expandir a sua presença militar no Norte de África, enquanto transfere armas, mercenários e outros combatentes para zonas de guerra.
A Rússia está a planear, financiar, construir e disponibilizar pessoal para concluir projectos de infra-estruturas em seis bases aéreas líbias: Al-Jufra, Al-Khadim, Al-Qardabiyah, Brak al-Shati, Maaten al-Sarra e Tamanhint, de acordo com o Projecto Tearline, da Agência Nacional de Inteligência Geoespacial.
As bases aéreas estão espalhadas por todo o país e albergam uma variedade de equipamento militar, incluindo sistemas de defesa aérea, caças MiG-29 e drones. São operadas por pessoal militar russo e mercenários. A Rússia também tenciona, alegadamente, investir no porto de Tobruk e na base aérea de Tobruk.
A Rússia utilizou a Síria como centro de trânsito no Médio Oriente para equipamento, armas e pessoal até à queda do ditador sírio Bashar al-Assad, em Dezembro de 2024. O Kremlin voltou-se então para a Líbia. Depois de a Rússia ter inicialmente falhado em garantir um porto na Líbia, expandiu-se para o interior do país.
“A base aérea de Maaten al-Sarra constitui um exemplo fundamental,” escreveu Frank Talbot, investigador sénior não residente da Iniciativa do Norte de África no programa Rafid Hariri Center & Middle East, do Atlantic Council. “Esta base aérea estrategicamente localizada perto das fronteiras com o Chade e o Sudão é um ponto de apoio para as operações desestabilizadoras da Rússia em todo o Sahel.”
A base aérea do sul da Líbia permaneceu abandonada desde 2011, até que a Rússia destacou soldados sírios para a reactivar em Dezembro de 2024. O Kremlin pode abastecer directamente o Burquina Faso, o Mali e o Sudão a partir de Maaten al-Sarra, segundo noticiou a agência de notícias italiana Agenzia Nova. Técnicos russos e tropas sírias restauraram as pistas e os armazéns da base.
“A presença russa em Matan al-Sarra proporcionaria a Moscovo a capacidade de enviar armas para o território sudanês ou chadiano de forma discreta,” o analista Andrew McGregor escreveu para a publicação online Eurasia Daily Monitor, da Fundação Jamestown.
A presença militar da Rússia na Líbia também está a dificultar o frágil processo de unificação de Trípoli, ao sufocar os esforços para expulsar tropas estrangeiras e mercenários. “Continua a ser um obstáculo a um acordo de paz duradouro, permitindo que facções internas apoiadas por forças estrangeiras resistam aos esforços de paz,” o analista Ali Bin Musa escreveu para o Middle East Council on Global Affairs.
Localizada a cerca de 100 quilómetros a leste de Benghazi, a base aérea de Al-Khadim tem sido utilizada como centro nevrálgico para a condução de operações, o fornecimento de armas e o tráfico de recursos de e para a região conturbada, incluindo a entrega de armas às Forças de Apoio Rápido, uma milícia paramilitar do Sudão, durante a guerra civil daquele país.
No ano passado, foram construídos na base três novos hangares, um centro recreativo, uma possível torre de comunicações e potenciais unidades habitacionais temporárias ou edifícios de apoio, segundo noticiou o Tearline. O que parecem ser quartéis foram acrescentados em 2026.
Em 2025, o All Eyes on Wagner, um projecto de investigação de fonte aberta, documentou as viagens de um homem que trabalhava para a Gazprom, uma empresa russa do ramo energético. O homem tinha viajado de Al-Khadim para uma mina controlada pela Rússia na República Centro-Africana em 2023 e publicou fotografias da sua viagem no Instagram.
“A própria Al-Khadim parece estar a acolher pessoal russo regularmente,” relatou o Tearline. “Utilizando ferramentas de geolocalização das redes sociais, conseguimos identificar um cidadão russo destacado em Al-Khadim.” A pessoa era um oficial da 102.ª Divisão de Infantaria Motorizada da Rússia.
As forças paramilitares russas têm utilizado a Base Aérea de Al-Jufra, no centro da Líbia, desde 2019. As recentes melhorias na base incluem hangares renovados e a construção de pequenos edifícios, vedações, bermas e galpões, de acordo com o Tearline.
As forças russas foram observadas pela primeira vez na Base Aérea de Al-Qardabiyah em 2022. A base está ligada ao Aeroporto Internacional de Sirte. As forças russas construíram novas infra-estruturas, renovaram pistas e instalaram “novas defesas perimetrais” em Al-Quardabiyah em 2024, segundo noticiou o The Telegraph. Este ano, foi reparado um hangar na base.
Desde Março de 2024, as forças russas expandiram as suas operações na Base Aérea de Brak al Shati, no centro-sudoeste da Líbia. Pelo menos um novo hangar e dois edifícios, provavelmente utilizados para a manutenção de aeronaves, foram construídos recentemente, de acordo com o Tearline. O número de militares russos na base aumentou de 300 para 450 desde Dezembro de 2024.
Em meados de 2023, os mercenários do Grupo Wagner da Rússia, que antecedeu o Africa Corps, terão alegadamente utilizado a Base Aérea de Tamanhint, no sul da Líbia, para lançar operações militares e facilitar o envio de armas para o Sudão. Foram recentemente noticiados projectos de expansão, incluindo prováveis novos alojamentos, uma estrada repavimentada que liga uma pista aos hangares e modificações na pista.
