Os rebeldes Houthis do Iémen e o grupo terrorista al-Shabaab da Somália estão separados pelo estreito Golfo de Áden. A sua colaboração emergente para trocar informações, armas e conhecimentos técnicos representa uma ameaça para a África Oriental e a sua zona marítima.
É uma relação que está a evoluir de forma perigosa, segundo o antigo conselheiro de segurança nacional da Somália, Hussein Sheikh-Ali, que agora lidera o Instituto Saldhig, uma organização de pesquisa sediada em Mogadíscio.
O al-Shabaab já era a filial mais bem financiada e mais letal da al-Qaeda. Agora, com a ajuda dos Houthis, tem acesso a tecnologia avançada e treino.
“Os membros do al-Shabaab receberam treino no Iémen sobre drones e explosivos; o pessoal dos Houthi visitou o reduto do al-Shabaab em Galgala para intercâmbios sobre guerra assimétrica; e os empreendimentos financeiros conjuntos nas indústrias extractivas somalis estão agora documentados nas conclusões do Instituto Saldhig,” disse ao site de notícias da Somalilândia Geeska numa entrevista em Fevereiro de 2026.
“Isso já não é pontual, é uma parceria estratégica funcional regida pela utilidade mútua, em vez de tratados formais.”
O risco emergente mais grave, segundo o investigador do Médio Oriente, Luke Zakedis, é que os Houthis transfiram tecnologia de drones e mísseis para combatentes do al-Shabaab e os treinem para produzirem os seus próprios drones suicidas modernos e baratos.
“Enquanto antes os mísseis balísticos e os drones de ataque de nível militar exigiam propulsores ou componentes complexos que eram proibitivamente elaborados e caros para células terroristas, um drone de ataque Houthi pode custar apenas 10.000 dólares para produzir,” escreveu na edição de 17 de Abril da publicação Terrorism Monitor da Fundação Jamestown.
Zakedis acrescentou que “é razoável supor que, se um afiliado da al-Qaeda aprender a replicar a abordagem dos Houthis, outros poderão fazer o mesmo, representando um risco global muito mais vasto.”
Os instrutores Houthis viajam regularmente para as regiões de Bari, Sanaag Oriental e Lower Jubba, na Somália, onde o al-Shabaab coordena os seus movimentos juntamente com o contrabando de armas, munições, componentes de drones e dispositivos explosivos Houthis, de acordo com Matthew Bryden, um antigo funcionário das Nações Unidas na Somália e director do Sahan Research & Consulting Center, com sede na Somalilândia.
Existem provas consideráveis de “um envolvimento crescente dos Houthis na Somália desde 2023, não só com o al-Shabaab, mas também com o grupo Estado Islâmico na Somália e com milícias clânicas,” disse à rede de televisão Alhurra para uma reportagem de 13 de Maio.
Bryden disse que o al-Shabaab recrutou e enviou centenas de jovens somalis para o Iémen para receberem treino de combate terrestre e naval, corroborando um relatório de Novembro de 2025 elaborado por um Painel de Peritos da ONU que monitoriza o al-Shabaab. O painel detalhou como o al-Shabaab enviou quatro grupos de cerca de 30 combatentes. Um grupo partiu no final de Outubro de 2024 da costa de Lower Shabelle a bordo de um barco iemenita e chegou à cidade portuária de Hodeidah, no Iémen, para cerca de dois meses de treino em metralhadoras, armas antiaéreas e dispositivos explosivos.
Sheikh-Ali afirmou que a ligação emergente entre os grupos provavelmente se aprofundará e continuará a ameaçar o Corno de África.
“Para o al-Shabaab, o Iémen é a única fonte externa acessível de armamento avançado — drones, tecnologia de dispositivos explosivos improvisados (DEI), minas navais — e uma base de retaguarda para treino quando a pressão na Somália se intensifica. Também proporciona canais financeiros alternativos para contornar as sanções,” afirmou.
“Para os Houthis, a Somália oferece uma zona costeira com fraca governação para … estabelecer rotas alternativas de contrabando e projectar influência no Corno de África. Também proporciona campos de testes operacionais para novas tácticas antes de as implementar no Iémen. Não se trata de solidariedade ideológica; é uma troca de capacidades entre dois actores atingidos por sanções que procuram a sobrevivência e influência regional.”
