Os sinais triangulares vermelhos apontam para baixo e alertam os civis para se manterem afastados, com uma caveira e ossos cruzados acima das palavras PERIGO MINAS. São uma vista familiar em Cartum, a capital do Sudão devastado pela guerra.
Como um dos maiores campos de batalha iniciais de uma guerra civil que eclodiu há mais de três anos, Cartum foi devastada e ocupada pela milícia das Forças de Apoio Rápido (RSF) antes de as Forças Armadas do Sudão (SAF) terem retomado a cidade em Março de 2025.
Desde então, mais de 1,8 milhões dos 9 milhões de residentes da área metropolitana de Cartum regressaram para enfrentar a longa e árdua tarefa da reconstrução.
“À medida que as famílias começam a regressar, fazem-no num ambiente altamente perigoso, muitas vezes, sem consciência dos riscos”, Mohamed Sediq Rashid, chefe do programa de acção contra as minas das Nações Unidas no Sudão, disse numa conferência de imprensa, no dia 18 de Março.
Cartum está repleta de vestígios mortíferos da guerra: dispositivos explosivos improvisados escondidos e munições não detonadas (UXO), tais como minas terrestres, foguetes e granadas de artilharia. No centro da metrópole, o Parque Al-Mugran situa-se na ponta de uma pequena península que se projecta no ponto de encontro dos rios Nilo Azul e Nilo Branco. Costumava ser um refúgio para famílias, com cafés, um pequeno palco para música e atracções de parque de diversões rodeadas por espaços verdes.
Hoje, é o local de um grande esforço para remover munições não detonadas (UXO) pelo Centro Nacional de Acção Contra Minas do governo sudanês.
Em Julho de 2025, dois soldados das Forças Armadas do Sudão (SAF) accionaram acidentalmente uma mina, levando as autoridades a descobrirem um campo minado activo que se estendia por 4,5 quilómetros quadrados. Os sapadores da organização sudanesa JASMAR e do Conselho Dinamarquês para os Refugiados passaram nove meses a remover mais de 12.000 engenhos explosivos do Parque Al-Mugran.
Salientando a importância estratégica do local, o supervisor de campo da JASMAR, Jumaa Ibrahim Abu Anja, disse que as RSF colocaram minas para impedir que as tropas inimigas se espalhassem depois de atravessarem a Ponte do Nilo Branco vindas de Omdurman.
“Encontrámos mais de 300 artefactos perigosos, incluindo minas equipadas com cargas mais pequenas e materiais altamente explosivos, concebidas para causar o maior número possível de vítimas aquando da detonação,” disse ao jornal Asharq Al-Awsat para um artigo de 25 de Abril.
Autoridades sudanesas afirmam ter removido dezenas de milhares de explosivos em toda a capital, mas inspeccionaram apenas uma fracção da cidade, onde foram encontrados outros seis campos minados e onde vastas áreas da cidade permanecem vazias e inseguras.
A remoção de minas é um processo meticuloso, por isso o progresso é lento. Uma equipa limpa cerca de 10 a 15 metros quadrados por dia. Levará anos para limpar Cartum, disse Abu Anja. Cerca de 80% do Parque Al-Mugran já foi limpo, e a sua equipa está num bom caminho para terminar em Maio. Mas os atrasos aumentam o perigo para os civis, dezenas dos quais foram mortos ou feridos por munições não detonadas na grande Cartum.
A par do trabalho no terreno, o Centro Nacional de Acção Contra Minas realiza campanhas de sensibilização, falando em mesquitas, nos mercados, em programas de rádio e podcasts, e enviando mensagens de texto a exortar os residentes a evitarem objectos suspeitos e a comunicar as autoridades. Também alertam contra a queima de resíduos devido ao risco generalizado de munições não detonadas escondidas.
De volta ao local de Al-Mugran, o desminador Hussein Idris pousou o seu detector de metais e levantou a viseira de plástico transparente que protege o seu rosto. Aos 60 anos, ele tem vindo a remover minas há quase duas décadas.
“É um trabalho árduo, mas felizmente ainda estamos vivos,” disse à Agence France-Presse, “e o parque pode voltar ainda melhor do que antes.”
