O conflito armado entre as Forças Armadas do Sudão e as Forças de Apoio Rápido, de carácter paramilitar, entrou no seu quarto ano em Abril, deixando um rasto de destruição.
O balanço humano tem sido catastrófico, com milhares de vidas perdidas e inúmeras comunidades devastadas. Um grande número de civis foi deslocado das suas casas, com muitos a fugirem para regiões mais seguras dentro do Sudão, enquanto outros procuraram refúgio em países vizinhos. O que começou como uma luta interna pelo poder transformou-se numa das crises humanitárias mais graves da história recente.
Actores externos têm alimentado o conflito em curso através do fornecimento de material e equipamento militar, sendo os Emirados Árabes Unidos considerados o principal financiador da milícia RSF. Relatórios publicados, incluindo um no The Wall Street Journal, revelam que os EAU canalizaram drones avançados de fabrico chinês e uma variedade de armas chinesas para as mãos deste grupo armado, o que representa um aumento significativo e preocupante do envolvimento estrangeiro no conflito.
Brian Castner, director de Investigação de Crises da Amnistia Internacional, condenou a inacção global em responsabilizar os EAU pela transferência de armas chinesas para as RSF e apelou à suspensão imediata das transferências de armas. A Amnistia documentou casos de bombas guiadas chinesas GB50A e obuses AH-4 de 155 mm nas mãos de combatentes das RSF.
“Civis estão a ser mortos e feridos devido à inacção global, enquanto os EAU continuam a desrespeitar o embargo. Os EAU têm de suspender imediatamente as suas transferências de armas para as RSF,” Castner recomendou em Maio.
A China aumentou as suas exportações de armas para África nos últimos anos. Em 2024, ultrapassou a Rússia como o maior exportador de armas para a África Subsariana, e pelo menos 21 países receberam grandes remessas de armas da China entre 2019 e 2023.
Em Setembro de 2024, a China anunciou um plano para investir 140 milhões de dólares na formação de 6.000 militares em África. Além disso, a NORINCO, uma das principais empresas chinesas do sector da defesa, abriu um escritório regional em Dakar em 2023 — o seu quarto em África — e aproveitou essa presença para expandir as suas vendas de equipamento militar ao Burquina Faso, Mali e Níger. Em troca de assistência em matéria de segurança, os países africanos têm ajudado a promover as ambições geopolíticas da China, aprofundando a dependência mútua.
Desde o início da guerra, os EAU têm vindo a canalizar uma grande variedade de armamento chinês para as RSF. Este armamento vai desde bombas guiadas e obuses até veículos aéreos não tripulados e sistemas avançados de defesa aérea FK2000. Segundo relatos, os EAU compram as armas e, em seguida, reexportam-nas para as RSF através de várias rotas na Líbia e no Chade. Os EAU negam oficialmente o envio de armas para as RSF, apesar das notícias generalizadas sobre essa actividade.
As armas chinesas têm desempenhado um papel significativo no reforço das capacidades militares das RSF durante o conflito. Estas armas têm ajudado as RSF a obter vitórias no campo de batalha contra as SAF. Uma das principais vantagens do armamento chinês é o seu preço acessível, colocando-o ao alcance de grupos armados não estatais como as RSF. Além disso, estas armas, muitas vezes, são fornecidas sem supervisão governamental rigorosa ou controlos regulamentares, o que facilita a sua aquisição. Consequentemente, prevê-se que as RSF se tornem cada vez mais dependentes das armas chinesas à medida que o conflito se prolonga.
Com base no modelo das RSF, a relação entre os comerciantes de armas chineses e os grupos militantes africanos poderá tornar-se mais estreita ao longo do tempo, e as armas da China poderão agravar os conflitos noutras partes do continente. Este alcance cada vez maior suscita sérias preocupações entre os decisores políticos e os analistas de segurança.
Deixar que estas armas cheguem ao conflito acarreta um elevado custo humano. As RSF utilizam drones para atacar centros populacionais antes de lançar um ataque terrestre, causando danos graves e perturbando infra-estruturas importantes.
A linha de abastecimento chinesa dos EAU para o Sudão não está especificamente identificada, mas, de uma forma geral, as armas são encaminhadas para as RSF através de países vizinhos, como a República Centro-Africana, o Chade e a Etiópia, de acordo com o jornal francês Le Monde.
Uma forma de abrandar este fornecimento letal de armas seria as potências estrangeiras exercerem pressão diplomática sobre os EAU. Uma segunda abordagem envolve levar a questão ao palco internacional através do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ao levantar a questão neste fórum global, as partes externas poderiam chamar uma atenção internacional mais ampla para o fluxo ilegal de armas para a zona de conflito.
Uma parte central desta estratégia envolveria apelar a todas as partes para que honrem e respeitem o embargo de armas a Darfur. Este embargo, que foi estabelecido especificamente para impedir a transferência de armas para a região de Darfur, tem sido amplamente ignorado por vários intervenientes. Uma pressão internacional renovada poderia ajudar a reforçar o cumprimento deste acordo juridicamente vinculativo. Em conjunto, estas duas estratégias representam os caminhos mais realistas e eficazes para travar a perigosa disseminação de armas chinesas no Sudão.
Sobre o autor: Mohamed Suliman é um escritor e investigador sudanês que estuda como o fluxo internacional de armas está a alimentar o conflito no Sudão. Residente em Boston, é licenciado em engenharia pela Universidade de Cartum.
