As regiões de Tillaberi e Dosso, no sudoeste do Níger, tornaram-se palco da mais recente guerra territorial entre os grupos terroristas do Sahel, o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) e o Estado Islâmico na Província do Sahel (IS Sahel).
Nas últimas semanas, os dois grupos atacaram-se mutuamente e de forma repetida, enquanto cada um procura estabelecer o domínio sobre a zona do Níger que faz fronteira com o Benin a sul e com o noroeste da Nigéria a leste.
“A rivalidade entre os dois grupos é tanto ideológica como territorial,” Héni Nsaibia, investigador sénior para a África Ocidental no Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED), disse ao The Africa Report.
Embora o JNIM continue a ser o mais poderoso dos dois, a batalha por Tillaberi e Dosso tem sido mortífera, observou Nsaibia. Tillaberi circunda a capital nacional, Niamey.
No início de Abril, o IS Sahel anunciou que tinha matado 35 combatentes do JNIM e apreendido as suas armas e motociclos em retaliação a um ataque do JNIM a uma aldeia em Tillaberi na semana anterior.
Os combates do sudoeste do Níger são uma extensão da rivalidade de longa data entre o JNIM e o IS Sahel, que se espalhou por Burquina Faso e Mali. Os golpes militares que derrubaram governos democraticamente eleitos na região entre 2021 e 2023 pouco fizeram para conter os grupos terroristas.
À medida que os dois grupos se expandiam pelo Sahel, entravam repetidamente em confronto na sua busca por território e pelos recursos que este proporciona, tais como “impostos” de zakat sobre civis, roubo de gado e outros esquemas lucrativos.
Os dois grupos adoptaram abordagens diferentes para se estabelecerem em Tillaberi e Dosso. Embora ambos sejam violentos, o JNIM tenta apresentar-se como o protector das comunidades locais e mostrar que pode preencher as lacunas de serviços deixadas pelo governo.
“Em contraste, o ISSP é mais coercivo e brutal, recorrendo frequentemente à violência em massa,” observou Nsaibia.
Ambos os grupos atacam regularmente posições militares. Ambos também se aproveitam da mudança da Rússia, passando da brutalidade do Grupo Wagner para a abordagem mais discreta do Africa Corps, dirigido pelo governo.
O IS Sahel está sediado a norte de Niamey. No final de Janeiro, os seus combatentes atacaram o aeroporto internacional do Níger e a adjacente Base Aérea 101, que acolhe algumas centenas de combatentes do Africa Corps. O ataque surpresa acabou por ser repelido, mas não sem antes servir como uma vitória crucial de propaganda para o IS Sahel.
“O impacto é principalmente psicológico: ao visar o aeroporto, o Estado Islâmico não procura apenas visibilidade mediática, mas ataca um símbolo particularmente vulnerável da soberania,” escreveram recentemente os analistas do site West African Maps.
“O ataque destaca os desafios persistentes envolvidos na protecção de infra-estruturas críticas, numa altura em que as autoridades de transição afirmam dar prioridade à protecção do território e da população,” acrescentaram os analistas.
O JNIM construiu a sua base no complexo transnacional do Parque Nacional W-Arly-Pendjari, ao longo das fronteiras do Benin, Burquina Faso e Níger. A partir daí, o JNIM lançou ataques contra o Benin e a Nigéria. No final de 2025, combatentes do JNIM mataram 10 soldados nigerinos na região de Tillaberi.
À medida que a guerra territorial entre o JNIM e o IS Sahel se intensifica, o mesmo acontece com a guerra de palavras. Cada lado acusa o outro de ser desviante (nome dado pelo JNIM ao IS Sahel) ou apóstata (termo usado pelo IS Sahel para se referir ao JNIM). Sem uma acção militar bem-sucedida para os deter, os dois grupos provavelmente continuarão a sua luta mortal pela supremacia, afirmam os analistas.
“Esta rivalidade provavelmente continuará a alimentar o recrutamento, a expansão e a violência, tornando a insurgência terrorista cada vez mais difícil de conter,” Nsaibia disse à Reuters.
