Os pastores Tuaregues, Ousmane Ag Sidi e Abdoulwahab Ag Mahamad, estavam a trabalhar em Zahro e arredores, uma aldeia situada junto ao Rio Níger, no norte do Mali. Não tinham ligações conhecidas a grupos terroristas. No dia 23 de Junho, saíram da aldeia e depararam-se com membros de uma patrulha do Exército do Mali e os seus parceiros russos do Africa Corps.
Depois de a patrulha ter partido, os residentes ficaram chocados ao descobrir uma cena horrível: os homens tinham sido mortos a tiro e o corpo de Ag Sidi estava desmembrado, com os braços e as pernas dispostos na forma de uma suástica.
Tilla Ag Zeini, presidente da organização local de direitos humanos Colectivo para a Defesa dos Direitos do Povo de Azawad/Norte do Mali (CD-DPA), condenou as execuções sumárias pelas quais os mercenários russos se tornaram notórios.
“É uma cena horrível, é uma barbárie extrema, nada pode justificar esta atrocidade,” disse à Radio France Internationale. “Viola o direito humanitário internacional, viola os princípios da guerra. O objectivo é aterrorizar a população, criar um clima de medo.”
A brutalidade tem sido uma característica da presença militar russa no Mali desde que os mercenários do Grupo Wagner chegaram pela primeira vez, a pedido dos governantes militares do país, em Dezembro de 2021. Acusações e provas de massacres de civis, violações, tortura e outras violações de direitos humanos têm acompanhado os russos desde que estes se rebaptizaram como Africa Corps dois anos mais tarde.
No dia 25 de Abril, a Frente de Libertação do Azawad (FLA) e o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), um colectivo de grupos terroristas do Sahel afiliado à al-Qaeda, lançaram ataques coordenados por todo o Mali com o objectivo de derrubar a junta no poder. No dia 26 de Abril, os combatentes da FLA expulsaram os mercenários do Africa Corps da cidade estratégica de Kidal sem qualquer combate.
O Africa Corps e as forças malianas mataram pelo menos 278 civis no norte entre Junho e Dezembro de 2025, de acordo com o relatório anual do CD-DPA.
“No passado, o exército maliano perpetrou vários massacres de civis. Mas esta é a primeira vez que vemos cabeças decepadas e corpos desmembrados,” disse um antigo representante eleito da região de Tombuctu, que falou anonimamente ao jornal francês Le Monde para um artigo publicado a 27 de Junho. “Os russos importaram os seus métodos bárbaros para o Mali, sob as ordens da junta.”
Os combatentes do Africa Corps também matam regularmente gado, o principal meio de subsistência das comunidades seminómadas. Cerca de 300 ovelhas foram encontradas abatidas por uma saraivada de balas depois de uma patrulha conjunta russo-maliana ter passado pela cidade de Aguelhok em meados de Junho.
“Esta estratégia de terra queimada tem apenas um objectivo: aterrorizar as populações e forçá-las ao exílio nos países vizinhos. Trata-se de terrorismo de Estado,” o porta-voz da FLA, Mohamed Elmaouloud Ramadane, disse ao Le Monde.
Tal como o Grupo Wagner antes deste, o Africa Corps tem tido poucos sucessos no Mali. As suas tácticas brutais não contribuíram em nada para travar a propagação do terrorismo.
“O único resultado é um desejo crescente de vingança e, consequentemente, um aumento da violência em geral,” afirmou o antigo responsável da região de Tombuctu.
Ramadane disse que não há diferença entre os mercenários do Grupo Wagner e os soldados russos do Africa Corps.
“Têm o mesmo comportamento, os mesmos métodos e a mesma mentalidade criminosa,” afirmou. “Apenas mudaram de chapéu. Não se trata de soldados formados nas leis da guerra, mas sim de mercenários que foram regularizados pelo Ministério da Defesa da Rússia.”
Lou Osborn, investigadora do colectivo jornalístico Inpact, afirmou que, ao reformular a imagem e relançar o Grupo Wagner, uma empresa militar privada como o Africa Corps, a Rússia abdicou de qualquer pretensão de negação plausível que outrora alegava.
“Toda a cadeia de comando do Africa Corps é composta por membros do GRU [serviço de inteligência militar russo] que respondem directamente ao Kremlin,” disse ao Le Monde.
“Ninguém acreditava nisso, mas uma das vantagens do Grupo Wagner era que o Kremlin podia culpar os seus líderes se algo corresse mal, dizendo: ‘Não somos nós, são eles.’ Com o Africa Corps sob a autoridade directa do Ministério da Defesa, esse argumento já não funciona.”
