O Movimento Popular de Libertação do Sudão-Sector Norte (SPLM-N) afirmou que um ataque aéreo das Forças Armadas do Sudão (SAF) matou pelo menos sete pessoas e feriu dezenas de outras durante um funeral a 27 de Março nas Montanhas Nuba.
A região próxima da fronteira com o Sudão do Sul estava longe das linhas da frente quando a guerra civil do Sudão eclodiu em Abril de 2023, mas isso mudou gradualmente desde 2025, depois de o SPLM-N ter decidido unir forças com as Forças de Apoio Rápido (RSF), uma milícia paramilitar, contra as SAF. O SPLM-N controla a maior parte do Estado do Cordofão do Sul, que abrange as montanhas.
Lideradas pelo General Mohamed Hamdan “Hemedti” Dagalo, as RSF utilizam as montanhas como base estratégica a partir da qual lançam ataques. As RSF controlam grande parte do oeste do Sudão, enquanto as SAF ocupam a capital, Cartum, e o leste do país. Embora as SAF ainda controlem algumas cidades nas montanhas, o acesso às colinas acidentadas dá às RSF uma base de operações para a sua ofensiva com vista a reconquistar Cartum. Os analistas afirmam que a presença das RSF em torno dos hospitais e mercados da região de Nuba transforma estas áreas movimentadas em potenciais alvos de guerra.
No entanto, Jalale Getachew Birru, analista sénior do Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED), está entre os observadores cépticos quanto ao tempo que as RSF e o SPLM-N poderão permanecer aliados. Quando as RSF e o SPLM-N perderam o controlo de Kadugli, perto da extremidade norte das montanhas, para as SAF em Fevereiro, os grupos culparam-se mutuamente pela derrota.
“Houve um confronto que acompanhámos de perto para ver se seria um sinal de que esta aliança iria finalmente romper-se e de que seguiriam caminhos separados,” Birru disse numa reportagem de Abril da emissora alemã Deutsche Welle.
Muitos habitantes da região de Nuba recordam ataques brutais das RSF contra campos de deslocados. Estão receosos em relação à nova aliança.
As tensões étnicas entre os árabes urbanos e o povo Nuba, bem como a desconfiança no governo de Cartum, têm alimentado um conflito de longa data nas montanhas, com grandes escaladas em 2011 e após o início da guerra civil em 2023. O recomeço do conflito regional tem causado graves consequências para a população civil.
Afra Al Neil Hamed estava grávida de quatro meses e tinha ido buscar água quando um drone atingiu a sua casa na cidade de Ed Dubeibat, no Cordofão do Sul, em Novembro de 2025. Ela ouviu a explosão e correu de volta para casa, mas encontrou o marido e o filho adolescente mortos. Hamed e os seus outros cinco filhos passaram uma semana escondidos na floresta antes de fugirem da cidade com centenas de outras pessoas.
“Comecei a sangrar na estrada e caminhei durante sete dias,” Hamed, que sofreu um aborto espontâneo, disse à revista britânica Prospect. “Muitas mulheres sangravam durante a viagem.”
Tanto as RSF como as SAF foram acusadas de cometer atrocidades contra civis. A guerra já matou dezenas de milhares de pessoas e deslocou cerca de 11 milhões, criando as maiores crises de fome e deslocamento do mundo, de acordo com as Nações Unidas.
Os combates nas Montanhas Nuba também ameaçam desestabilizar ainda mais o Sudão do Sul, onde o intensificar dos combates entre grupos da oposição e forças governamentais em áreas limítrofes das montanhas ameaça o frágil cessar-fogo de 2018 do país. O agravamento das tensões em zonas fronteiriças porosas e em conflito nos Estados do Alto Nilo e da Unidade, bem como na disputada Área Administrativa de Abyei, provocou um afluxo de refugiados sudaneses para o Sudão do Sul, agravando uma crise humanitária já grave.
Em Fevereiro, o Programa Mundial de Alimentação da ONU suspendeu a entrega de ajuda ao Estado do Alto Nilo após repetidos ataques a uma coluna que transportava assistência humanitária. O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, afirmou num comunicado que estava “profundamente preocupado com o impacto da escalada da violência” no Sudão do Sul, acrescentando que esta “prejudicará ainda mais as populações civis que já se encontram numa situação vulnerável.”
A Rússia e o Irão estão a alimentar o conflito sudanês com remessas de armas e outros bens. Fornecem às Forças Armadas do Sudão (SAF) armas, drones, combustível e peças para caças. A Arábia Saudita e a Turquia forneceram drones e outras armas às SAF, na tentativa de obterem fácil acesso ao Mar Vermelho.
Ansiosos por projectar a sua influência na África Oriental e na região do Mar Vermelho, os Emirados Árabes Unidos foram acusados de fornecer armas às RSF e recrutar mercenários colombianos para lutar ao lado do grupo paramilitar. Os EAU negam estas acusações.
O envolvimento de actores estrangeiros “não só prolonga a violência, como também torna muito complicado chegar a um acordo político,” Emadeddin Badi, investigador sénior da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional, disse à Prospect.
