Uma região no nordeste da Nigéria foi apelidada de “Triângulo de Tombuctu” por grupos terroristas, que aspiram reforçar o controlo e estabelecer um califado.
Novas reportagens dos Estados de Borno e Yobe mostram que os residentes vivem com medo, pois enfrentam açoites, tributação e até mesmo execução se violarem as regras impostas pelos ocupantes.
“É estranho quando passa um dia sem tiros no Triângulo de Tombuctu,” um profissional de saúde chamado Kande disse à revista The Africa Report. “Damboa e as suas comunidades vizinhas estão encharcadas de sangue.”
Os combatentes do Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP) começaram a ocupar a região da savana nos últimos anos, depois de disputas internas terem levado os combatentes a abandonarem os bastiões na Floresta de Sambisa e nas Montanhas Mandara. O triângulo de 11.000 quilómetros quadrados estende-se de Maiduguri, passando por Dankalwa, até Damboa. Tem sido um terreno fértil para grupos terroristas, devido ao seu capim alto e à vegetação densa, capazes de ocultar bases.
Embora as forças armadas sejam visíveis nas estradas principais e nos centros populacionais, os grupos terroristas detêm o poder nas comunidades mais pequenas. Em entrevistas com nove pessoas da região, a The Africa Report descobriu que os combatentes realizavam tribunais improvisados da Sharia, onde as pessoas eram condenadas por crimes como espionagem, violação de regras sociais e não pagamento de impostos.
“As punições podem ser severas, incluindo espancamentos, açoites ou fuzilamentos. Em alguns casos, as vítimas são deixadas gravemente feridas no mato como um aviso para os outros,” segundo a The Africa Report.
A letalidade ficou patente a 9 de Abril, quando o ISWAP e o Boko Haram lançaram ataques coordenados contra uma base militar em Benisheikh e duas aldeias vizinhas. O ataque à base matou um brigadeiro-general e outros soldados. No dia 26 de Abril, os terroristas do ISWAP invadiram um campo de futebol em Guyaku, no vizinho Estado de Adamawa, matando cerca de 30 pessoas antes de incendiarem casas e uma igreja.
Os incidentes fazem parte de uma onda mortífera perpetrada pelo ISWAP e pelo Boko Haram. No primeiro trimestre de 2026, os ataques aumentaram 25%, resultando num dos períodos de três meses mais sangrentos desde 2015. Isso acontece depois de a Nigéria ter registado o maior aumento de mortes por terrorismo a nível mundial em 2025, com um aumento de 46%, passando de 513 para 750.
No meio da violência, as Forças Armadas da Nigéria (AFN) estão a relatar algum sucesso. O Quartel-General da Defesa da Nigéria anunciou que matou 216 terroristas e prendeu 284 suspeitos, incluindo “líderes de grupos,” em Abril. Operações militares resgataram 188 vítimas de sequestro e descobriram um depósito de armas e munições no mesmo mês.
“Nenhuma organização criminosa ou terrorista, independentemente dos seus recursos financeiros, extensão geográfica ou ambição ideológica, está fora do alcance das AFN,” o Director de Operações de Comunicação Social da Defesa, Major-General Michael Onoja, disse numa conferência de imprensa em Abuja. “O público nigeriano é instado a continuar a colaborar com as AFN, fornecendo informações oportunas e credíveis através dos canais de denúncia disponíveis.”
Numa entrevista à The Africa Report, o Major-General Abdulsalami Abubakar atribuiu o mérito às ofensivas coordenadas, ao apoio aéreo e a uma relação crescente com os Estados Unidos, que estão a fornecer formação e informações. “Estamos a aproveitar a nossa actual parceria com os Estados Unidos,” afirmou.
As forças nigerianas estão a travar uma campanha em duas frentes: derrotar os terroristas no campo de batalha e vencer a luta ideológica para tranquilizar os civis. Após anos de insegurança, as pessoas da área passaram a duvidar da capacidade das forças armadas de as proteger e foram vítimas da propaganda implacável do ISWAP, que retrata o grupo terrorista como seus defensores. No final de Janeiro, as tropas nigerianas da Operação Hadin Kai obtiveram uma vitória quando se aventuraram nas profundezas do triângulo para destruir três instalações de detenção de terroristas e libertar mais de 70 reféns. Operações como esta ajudam a conquistar o apoio público, afirmam especialistas em segurança.
O general reformado Christopher Musa, Ministro da Defesa da Nigéria, insistiu que o país se encontra num “ponto de viragem” na sua guerra contra os grupos terroristas, mas alertou que será uma luta longa.
“A guerra assimétrica é a operação mais difícil, porque o inimigo está dentro,” disse à rede de notícias Arise News. “Estamos a travar uma guerra e a enfrentar um inimigo determinado que recebe apoio do exterior e que não tem nada a perder. O pior inimigo que se pode enfrentar é aquele que vem de dentro e que sente que não tem nada a perder.”
