O Flintlock 26 não foi apenas um exercício militar. Para a Líbia, coanfitriã do evento, foi um acontecimento histórico que reuniu soldados líbios do Governo de Unidade Nacional (GUN) e do Exército Nacional da Líbia (LNA), criando um impulso tangível para a estabilização e a potencial reunificação das forças de segurança naquele país do Norte de África.
O foco do Exercício Flintlock foi reforçar as capacidades de combate ao terrorismo e melhorar a coordenação da segurança regional. Mas na Líbia, todos os olhos estavam postos nas forças militares do país dividido, que se reuniram para exercícios conjuntos.
Cerca de 1.500 militares de mais de 30 países participaram na 21.ª edição do Exercício Flintlock, que também decorreu com soldados a treinar num segundo local na Costa do Marfim. Iniciado em 2005, o Flintlock é o exercício de operações especiais emblemático do Comando dos EUA para África (AFRICOM) no continente.
Antes do início do exercício na cidade costeira de Sirte, o subsecretário do Ministério da Defesa, Abdelsalam Al-Zoubi, do GUN sediado em Trípoli, celebrou a importância de colaborar com antigos inimigos do leste.
“Com a participação africana e internacional, e sob os auspícios do AFRICOM, o evento transcende as suas fronteiras geográficas, colocando a Líbia no centro de um cenário regional que reconhece o seu papel e afirma que a sua estabilidade não é apenas um assunto interno, mas um pilar da segurança de toda a região,” disse num comunicado de 10 de Abril. “Este exercício é o início de uma fase em que o poder é escrito na linguagem da unidade, e a soberania é preservada pela vontade do povo daquele país.”
Em declarações aos jornalistas durante a viagem para Sirte, o vice-comandante do AFRICOM, Tenente-General John Brennan, mostrou-se satisfeito por ver a Líbia dar um passo importante no sentido de instituições militares nacionais mais coesas e unificadas.
“O povo líbio merece forças de segurança unificadas para protegê-lo e aos seus interesses,” afirmou Brennan.
Durante o exercício em Sirte, as forças líbias invadiram uma aldeia simulada, libertaram reféns e eliminaram terroristas, enquanto médicos militares líbios trocavam melhores práticas para o tratamento de vítimas de traumatismos com profissionais de saúde militares dos EUA, do Reino Unido e da Alemanha.
“Muitos dos membros da equipa médica líbia aqui presentes são médicos altamente especializados; contam com cirurgiões gerais e médicos de medicina interna,” o major britânico, Rich Cumpsty, disse num vídeo produzido pelos EUA no dia 19 de Abril. “Trabalhar em equipa com os líbios e partilhar conhecimentos ajudou ambas as partes a adoptarem uma abordagem colaborativa.”
O Flintlock 26 também viu a criação de um Centro de Operações Conjuntas multinacional em Sirte, onde os parceiros regionais partilharam informações e geriram recursos durante as operações de exercícios conjuntos.
Zoubi, que também serve como comandante da 111.ª Brigada, sediada no ocidente, destacou a importância de realizar exercícios em Sirte, separando simbolicamente os lados oriental e ocidental do país.
Sirte é também um símbolo da vitória sobre os terroristas do grupo Estado Islâmico, que em 2015 tomaram a cidade e a transformaram no seu maior reduto fora do Iraque e da Síria. Após meses de intensos combates, as forças líbias libertaram a cidade em Dezembro de 2016.
“A cidade, que testemunhou as épocas mais difíceis, está a repintar o cenário de uma forma diferente: unidades de diferentes regiões do país, a fundir distâncias e a derrubar as barreiras de ontem, para dizer com uma só voz militar: Não há lugar para divisões entre aqueles que juraram proteger a Líbia,” afirmou Zoubi.
Saddam Haftar, vice-comandante do Exército Nacional da Líbia, afirmou num discurso perante o Flintlock que o evento “reafirma a posição da Líbia como um parceiro fiável no apoio à paz e à segurança regionais e internacionais.”
Elogiou a Itália por desempenhar um papel significativo na escolha de Sirte e no planeamento das actividades no local, o que significou um “marco histórico” e apoiou “o desenvolvimento contínuo de um exército líbio unificado.”
Uma comissão que apoia os esforços das forças conjuntas líbias, conhecida como Comissão Militar Conjunta Líbia 3+3, também desempenhou um papel fundamental no Flintlock, que terminou no dia 30 de Abril.
“Graças ao empenho de líderes visionários de ambos os lados e à diligência do 3+3, isto é agora uma realidade,” Brennan disse na cerimónia de abertura. “A segurança gera prosperidade, e isso é claramente visível na Líbia hoje e, como viram, no campo de demonstração à vossa frente.”
