Há mais de uma década que o Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP) tem vindo a conduzir uma intensa insurgência em toda a região do Lago Chade, afectando comunidades no Chade, nos Camarões, no Níger e na Nigéria. Mas a natureza geográfica desta ameaça está a mudar.
Uma análise dos dados sobre o conflito de 2015 a 2025 revela que, embora a insurgência tenha inicialmente visado centros urbanos, tem-se expandido cada vez mais para o interior das zonas rurais. Esta ruralização reflecte a crescente concentração de tropas governamentais em acampamentos fortificados.
No Sahel, os grupos terroristas passaram por várias fases de expansão. Antes de o ISWAP se ter separado oficialmente do Boko Haram em 2016, as principais cidades da Bacia do Lago Chade serviam de campos de batalha activos, quando o grupo contestava a autoridade do Estado.
A combinação de dados do Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED) com dados sobre as cidades do Africapolis, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, mostra que metade de todos os eventos violentos envolvendo o ISWAP ocorreram em áreas urbanas em 2015.
À medida que o ISWAP se expandia no final da década de 2010, a percentagem de ataques urbanos diminuía. Ao contrário do Boko Haram, que ganhou má fama pelos ataques indiscriminados contra mercados, mesquitas e infra-estruturas civis, o ISWAP procurou apresentar-se como uma alternativa mais orientada para a governação em áreas rurais, muitas vezes, negligenciadas pelo governo.
Este primeiro período de ruralização foi, no entanto, de curta duração. No início da década de 2020, o ISWAP intensificou gradualmente os ataques em centros urbanos, regressando brevemente ao nível de 49% de 2015, em 2023, antes de se concentrar cada vez mais nas zonas rurais. Em 2025, a proporção de incidentes em zonas urbanas tinha descido para menos de 30%.
A recente ruralização do ISWAP não significa que o grupo tenha decidido poupar as cidades. O ISWAP continuou a levar a cabo ataques contra centros urbanos na Bacia do Lago Chade, à medida que as suas capacidades operacionais aumentavam à custa das do Boko Haram.
O número de incidentes urbanos atingiu o pico em 2020, com 356. Este pico representa um intenso impulso operacional por parte do ISWAP, tendo o número total de ataques crescido de forma tão agressiva que as suas campanhas rurais se expandiram a um ritmo superior ao dos ataques urbanos.
Após o pico de 2020, o número de incidentes urbanos estabilizou, mantendo-se em torno dos 200 por ano em 2024 e 2025. Isso sugere que as pressões militares regionais reduziram a capacidade do grupo de operar livremente dentro das cidades. Tal coincide com a implementação de acampamentos militares fortificados e a construção de barreiras defensivas de terra em torno da maioria das cidades do nordeste da Nigéria. Estas iniciativas fazem parte de uma estratégia governamental para prevenir ou retardar incursões terroristas em áreas altamente povoadas.
No entanto, os superacampamentos e as trincheiras defensivas são uma faca de dois gumes. Proporcionam protecção a curto prazo, mas também podem agravar a insegurança rural e a vulnerabilidade da população civil. A taxa diária de ataques perpetrados pelo Boko Haram e pelo ISWAP mais do que duplicou desde que a estratégia dos superacampamentos foi implementada no final da década de 2010. A taxa de ataques das forças governamentais contra os insurgentes manteve-se estável. Por outras palavras, os terroristas preencheram rapidamente o vazio deixado nas zonas rurais e retomaram a sua ofensiva fora dos acampamentos fortificados.
O ISWAP não está apenas a ser expulso das cidades, mas está a afastar-se cada vez mais delas. Entre 2015 e 2021, a violência que ocorreu fora das zonas urbanas situava-se, em média, a cerca de 15 quilómetros dos centros urbanos. Tal sugere que os terroristas tinham como alvo as comunidades rurais situadas nos arredores das cidades fortificadas.
No entanto, após 2021, o ISWAP deslocou-se para mais longe. Em 2022, a distância média de um incidente não urbano aumentou para 20 quilómetros das áreas urbanas. Esta presença rural alargada manteve-se consistente até 2025, continuando a oscilar entre 17 e 19 quilómetros.
O ISWAP alargou o seu alcance para zonas rurais mais remotas, instalando-se nas ilhas do Lago Chade, na floresta de Sambisa e ao longo dos principais corredores de transporte.
A ruralização do ISWAP até 2025 pode ser vista como uma vitória para a contra-insurgência urbana. No entanto, os dados sugerem que a ameaça simplesmente se deslocou e se adaptou. Ao levar as suas operações para zonas rurais mais remotas, o ISWAP cria várias vantagens tácticas para si próprio e desafios para as forças do Estado.
Para enfrentar o inimigo, as patrulhas militares do Estado têm agora de se aventurar mais longe das superbases urbanas fortificadas, expondo-se a emboscadas e a dispositivos explosivos improvisados (DEI) ao longo das estradas rurais. As redes de inteligência humana também são significativamente mais difíceis de manter e proteger em aldeias isoladas e distantes. Enquanto o conflito se aprofunda nas comunidades rurais, as organizações internacionais de ajuda humanitária têm mais dificuldade em chegar às populações vulneráveis, o que agrava a insegurança alimentar e as deslocações.
Em última análise, a expansão do ISWAP para as zonas rurais significa que o modelo estático de defesa urbana e de superbases pode já não ser suficiente. Os quadros de segurança devem procurar ser mais ágeis e baseados na comunidade para projectar a autoridade do Estado nas zonas rurais da Bacia do Lago Chade.
SOBRE OS AUTORES: Finley Walker é estudante no Trinity College de Dublin, na Irlanda, onde frequenta o curso de Geografia com uma especialização secundária em Sociologia. Olivier Walther é professor associado no Departamento de Geografia da Universidade da Flórida.
