Uma região do norte dos Camarões, na Bacia do Lago Chade, tornou-se um ponto focal de pressão por parte de terroristas que tentam aprofundar o seu controlo, revela um estudo.
O Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP) está a recorrer à violência, à intimidação, à pressão económica e à propaganda para enfraquecer a autoridade no distrito isolado de Darak, na fronteira entre os Camarões, o Chade e a Nigéria, de acordo com um estudo do Instituto de Estudos de Segurança.
A região, a mais pobre dos Camarões, tem lutado há anos contra a insurgência do Boko Haram e o seu ramo mais poderoso, o ISWAP.
“Uma combinação de fraca integração nacional e negligência histórica por parte do Estado tem contribuído, há muitos anos, para a violência e a presença de contrabandistas na região, com uma proliferação de assaltantes de estrada, traficantes e pequenos criminosos,” relatou o International Crisis Group. “A região estava vulnerável a esta insurgência jihadista devido à sobreposição geográfica e cultural com o nordeste da Nigéria, à presença de uma versão intolerante do Islão e às repercussões das guerras civis do Chade.”
O ISS relatou que os civis da região estão a sofrer às mãos dos terroristas e das autoridades locais.
“O ISWAP submete os residentes locais às suas ‘leis,’ tais como obrigá-los a pagar um ‘imposto’ como sinal de lealdade e para proporcionar rendimentos ao grupo,” o instituto informou em Junho de 2026. Numa tentativa de deter os terroristas, as forças de segurança locais recorrem a abusos contra os residentes por colaborarem com os assaltantes e confiscam os seus bens, incluindo canoas e telemóveis, relatou o instituto.
O grupo terrorista utiliza a ideologia para difundir e impor a sua mensagem. Disse às aldeias que as inundações de 2024 na região, que destruíram casas e infra-estruturas, eram um castigo de Deus, afirmou o ISS.
Os investigadores associam o terrorismo nos Camarões à violência proveniente de países vizinhos, sobretudo da Nigéria e do Chade. O isolamento da região torna-a um alvo atraente para os terroristas. Os seus numerosos cursos de água sinuosos e ilhas habitadas proporcionam aos insurgentes rotas ocultas para o transporte de pessoal, armas e mantimentos.
O Boko Haram também continua activo na região. Desde 2021, com a perda do seu reduto na Floresta de Sambisa, na Nigéria, o Boko Haram deslocou as suas actividades para a região do Lago Chade, perto da fronteira com os Camarões, segundo relata o grupo de reflexão Jamestown. “Desde então, as tropas camaronesas têm mantido posições avançadas do outro lado da fronteira, na Nigéria, no âmbito de operações conjuntas de combate ao terrorismo,” informou o Jamestown em 2024.
Entre 2016 e 2019, o Boko Haram e o ISWAP levaram a cabo inúmeros ataques nos Camarões, muitas vezes, tendo como alvo campos de refugiados e civis. Um dos incidentes mais mortíferos ocorreu em Janeiro de 2016, quando quatro mulheres-bomba lançaram um ataque coordenado na cidade de Bodo, matando cerca de 35 pessoas e ferindo mais de 80.
Uma operação típica do Boko Haram ocorreu em 2023, quando terroristas mataram pelo menos 12 pessoas na Ilha de Darak, numa série de incursões realizadas em Julho. Combatentes fortemente armados chegaram em lanchas a motor, atacando pescadores em pelo menos três aldeias, “disparando indiscriminadamente e saqueando,” segundo a Voz da América. O governador da região solicitou a intervenção das forças armadas e a colaboração com milícias locais e civis para pôr fim aos ataques.
Historicamente, a região tem sido estrategicamente importante devido à sua abundância de peixe e terras férteis. Mas os meios de subsistência tradicionais estão ameaçados. Os cientistas afirmam que o lago encolheu cerca de 90% desde a década de 1960, devido a uma combinação de uso intensivo da água, irrigação ineficiente das culturas, secas graves e prolongadas e padrões climáticos em mudança.
Apesar da sua importância económica, a região conta com poucos funcionários governamentais e pouca infra-estrutura. Os insurgentes do ISWAP passaram a divulgar a sua propaganda em reuniões comunitárias e feiras semanais, exigindo que fossem chamados de “Dan mallam,” ou filhos do Profeta, segundo relatou o ISS. Para fazer cumprir as suas regras, os insurgentes têm recorrido a chicotadas, multas, raptos e prisões. Segundo relatos, os civis têm sido punidos por consumirem álcool ou por entrarem numa zona agrícola sem autorização do ISWAP.
O grupo atacou 10 postos militares na região desde Janeiro, “danificando as infra-estruturas do Estado e levando ao desmantelamento de postos militares camaroneses ao longo da fronteira,” informou o instituto.
Permitir a presença continuada do ISWAP na região irá encorajar o grupo e aumentar a ameaça terrorista em toda a parte norte do país, afirmam os investigadores. Recomendam o aumento do número de tropas em Darak, com soldados treinados para operar em “terreno pantanoso e inacessível” e equipados com canoas motorizadas, drones tácticos para observação e drones de combate armados capazes de realizar ataques direccionados. O instituto recomendou também uma acção militar conjunta entre a Nigéria e os Camarões “para ajudar a garantir a segurança de ambos os lados da fronteira.”
