Surgiu no Sudão uma complexa economia de guerra que está a esgotar os recursos naturais do país e a alimentar a violência.
Os intensos combates entre as Forças Armadas do Sudão (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), de carácter paramilitar, devastaram a economia, e nenhum dos lados alcançou a vitória militar nem iniciou negociações sérias para um cessar-fogo.
“O financiamento externo e o fornecimento irrestrito de armas motivam ambas as facções a dar prioridade ao maximalismo militar,” a investigadora e analista Carlota Ahrens Teixeira escreveu num relatório de 7 de Maio para a Geopolitical Intelligence Services (GIS). “Os lados podem continuar a combater graças aos fluxos financeiros ilícitos e às redes logísticas não estatais que servem de principal motor do conflito.”
Um dos cinco maiores produtores de ouro de África, as minas sudanesas produziram 74,6 toneladas métricas em 2025, de acordo com o World Gold Council. Apesar da guerra, a produção registou um aumento acentuado entre 2023 e 2025, representando mais de 70% da receita nacional total.
Gibril Ibrahim, Ministro das Finanças do governo alinhado com as SAF, afirmou que, em 2025, apenas 20 toneladas métricas foram exportadas através de canais oficiais.
“Os canais oficiais do governo registaram apenas uma pequena fracção desse valor como exportações, revelando uma fuga maciça na economia nacional,” disse à Agence France-Presse. “Infelizmente, grande parte foi contrabandeada… através das fronteiras, passando por diferentes países, e com destino ao Golfo, principalmente aos Emirados Árabes Unidos.”
As RSF construiram a sua base de poder através de rotas de contrabando de ouro que passavam pelo Chade e pela Líbia, algumas com a ajuda de mercenários russos. Trabalhou em estreita colaboração com o antigo Grupo Wagner, agora conhecido como Africa Corps, quando este chegou pela primeira vez ao Sudão em 2015.
“As complexas redes financeiras estabelecidas pelas RSF antes e durante a guerra permitiram-lhe adquirir armas, pagar salários, financiar campanhas nos meios de comunicação social, exercer pressão política e comprar o apoio de outros grupos políticos e armados,” escreveu um painel de peritos das Nações Unidas em 2024.
As RSF controlam as principais operações de exploração de ouro em Darfur e no Cordofão, enquanto as SAF supervisionam a extracção em todo o leste do Sudão, grande parte da qual passa por canais informais. Teixeira disse que as fronteiras porosas e a supervisão limitada em regiões desérticas remotas dificultam o acompanhamento dos fluxos transfronteiriços.
Estudos estimam que cerca de 60% do ouro produzido nos Estados do Norte, do Rio Nilo e do Mar Vermelho, no Sudão, é contrabandeado para o Egipto, onde entra nos circuitos comerciais formais e acaba por chegar aos EAU.
Teixeira não vê grandes mudanças no horizonte. O ouro permite que as SAF e as RSF contornem as restrições bancárias formais e oferece às partes beligerantes a liquidez necessária para continuar a importar armamento pesado e drones.
“A economia de guerra, particularmente o contrabando de ouro para mercados como os EAU, proporciona a ambas as facções uma fonte contínua de receitas para a compra de armas e drones, criando um enorme incentivo para prolongar o conflito em vez de chegar a um compromisso,” escreveu.
