A junta governante do Mali pagou quase um bilhão de dólares a mercenários russos desde 2021, num esforço para impedir a propagação de terroristas islâmicos e rebeldes Tuaregues. No entanto, os analistas afirmam que não se sabe o que o país obteve em troca desse dinheiro.
Anos de brutalidade russa, incluindo o massacre de Moura em 2023, que vitimou 300 homens da etnia Fulani, minaram o apoio público ao governo nas regiões norte e central do país. Os ataques apoiados pela Rússia a Kidal em 2023 puseram efectivamente fim ao acordo de paz de 2015 com os Tuaregues e levaram à retirada, no final de Abril, dessa mesma cidade, depois de a Frente de Libertação do Azawad (FLA) e o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) terem unido forças para a reconquistar.
A colaboração entre a FLA e o JNIM é uma mudança estratégica que colocou o governo e os seus apoiantes russos numa posição de desvantagem estratégica, de acordo com analistas do Instituto Robert Lansing para Estudos Globais e Democráticos.
“Ao combinar a legitimidade local com redes transnacionais, estes grupos conseguiram efectivamente superar tanto as forças malianas como os seus parceiros russos,” escreveu recentemente o Instituto Lansing.
O Africa Corps, tal como o seu antecessor, o Grupo Wagner, custa ao Mali pelo menos 10 milhões de dólares por mês, mesmo com os grupos terroristas a expandirem a sua presença no país. A junta paga ao Africa Corps em dinheiro, em vez de recursos, como fez a República Centro-Africana.
“É um grande fardo para a economia maliana, mas é uma garantia para a junta se manter no poder e saquear o país,” o analista Wassim Nasr, do Soufan Center, disse à ADF numa entrevista. “A prioridade deles é preservar o regime.”
A junta convidou o Grupo Wagner para o Mali depois de ter expulsado as tropas da operação antiterrorista francesa, Operação Barkhane, e da missão de manutenção da paz das Nações Unidas conhecida como MINUSMA. A junta prometeu restaurar a ordem que, segundo alegava, o governo democraticamente eleito do país não tinha conseguido alcançar.
A presença do Grupo Wagner no país variou de 1.000 mercenários no início para cerca de 2.500 em 2024, à medida que a junta avançava com o seu plano de colocar as regiões do norte do Mali sob o seu controlo. Cada combatente do Grupo Wagner custava ao Mali 10.000 dólares por mês, segundo analistas.
Inicialmente contratados para treinar as forças armadas malianas em combate ao terrorismo, os combatentes do Grupo Wagner, muitas vezes, juntavam-se aos soldados malianos em missões onde empregavam tácticas brutais, incluindo tortura, agressão sexual e execuções sumárias, contra a população maliana.
Uma grande mudança na utilização de mercenários teve início no final de Julho de 2024, quando a FLA emboscou uma coluna das forças malianas e do Grupo Wagner a caminho de um ataque à comunidade Tuaregue de Tinzouatin, na fronteira com a Argélia.
A emboscada matou dezenas de soldados e mercenários russos e levou a coluna a fugir para o território do JNIM, onde foi novamente atacada. Pouco depois disso, o Grupo Wagner declarou encerrada a sua missão no Mali e entregou as suas operações ao Africa Corps, uma mudança que foi em grande parte simbólica, pois muitos combatentes do Africa Corps vieram do Grupo Wagner.
Enquanto unidade do Ministério da Defesa da Rússia, o Africa Corps recebeu uma variedade de armamento russo, incluindo veículos Spartak e KamAZ-4385 e tanques T-72B3M, de acordo com imagens publicadas pelo canal de televisão local Cap Mali+.
No entanto, a invasão da Ucrânia pela Rússia esgotou os seus recursos e efectivos, limitando o número de combatentes do Africa Corps que pode dedicar a África, de acordo com o Instituto Lansing. Isso significa que o Africa Corps continua a ser demasiado pequeno para ser destacado num país tão vasto como o Mali.
“As consequências deste fracasso já são visíveis,” escreveu o Instituto Lansing.
As tácticas do Africa Corps revelaram-se significativamente diferentes das utilizadas pelo Grupo Wagner. É mais provável que os combatentes do Africa Corps permaneçam perto da sua base, junto ao aeroporto internacional de Bamako, em vez de se juntarem às forças armadas malianas no terreno — uma estratégia que também o mantém próximo da junta governante.
“O Grupo Wagner era mais aventureiro,” Nasr disse à ADF. “O Africa Corps ainda sai em missões, mas está menos confiante.”
A tomada de Kidal em Novembro de 2023 foi a maior conquista do Grupo Wagner durante o seu tempo no Mali, considerou Nasr. Mas essa conquista desmoronou-se durante o ataque conjunto do JNIM e da FLA a Kidal no final de Abril.
O ataque pôs à prova a capacidade do Africa Corps de manter o território que o Grupo Wagner tinha ajudado as forças armadas malianas a conquistar. Os combatentes do JNIM e da FLA fizeram prisioneiros soldados malianos, mas deixaram as forças do Africa Corps saírem da comunidade enquanto a população assistia.
Justyna Gudzowska, directora-executiva da The Sentry, uma organização de investigação sediada em Washington, disse à Radio Free Europe/Radio Liberty que a perda de Kidal é “o revés mais significativo em campo de batalha que o projecto africano da Rússia sofreu.”
“É um grande golpe para a reputação e para a política,” explicou Gudzowska.
