Yusuf tinha 5 anos na noite em que os terroristas do grupo Estado Islâmico, em motociclos, invadiram a sua aldeia e o levaram para o criar como um dos seus. Quando tinha 10 anos, já tinha combatido contra o Exército nigeriano e o grupo terrorista rival conhecido como Boko Haram.
Após cinco anos de combate no Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP), o jovem de 15 anos já estava insensível à visão da morte e da destruição. Ele explicou como as crianças pequenas são doutrinadas para o combate:
“Queres usar o uniforme,” disse ele ao jornal britânico The Times para um artigo de 13 de Março. O jornal atribuiu-lhe um pseudónimo para sua protecção. “Queres pertencer. Queres ser visto como um herói.”
Mas a vida de uma criança combatente é extremamente dura e, em muitos casos, curta. Os líderes do ISWAP são rígidos e inflexíveis, disse Yusuf, acrescentando que sabia que uma pessoa podia ser decapitada por desobediência.
Com cerca de 10.000 combatentes, o ISWAP é, de longe, a maior facção do EI. O recrutamento depende fortemente de raptos em massa e do alistamento forçado de homens, mulheres e crianças.
Referidos como “Filhotes do Califado,” as crianças-soldados são vistas como uma fonte fácil de mão-de-obra e, muitas vezes, são utilizadas em vídeos de propaganda do EI. Os especialistas afirmam que o ISWAP possui centenas de campos de treino para crianças nas inúmeras ilhas do Lago Chade, situadas ao longo das fronteiras do nordeste da Nigéria, sudeste do Níger, sudoeste do Chade e da região do Extremo Norte dos Camarões.
As Nações Unidas registaram milhares de casos em todo o mundo de crianças utilizadas em combate entre Dezembro de 2024 e Dezembro de 2025.
“O recrutamento e a utilização de crianças persistiram a níveis muito elevados, com 7.402 crianças recrutadas e utilizadas por actores estatais e não estatais,” de acordo com o relatório mais recente sobre Crianças e Conflitos Armados, publicado pela ONU em Dezembro de 2025. “Muitas vezes, a violação foi agravada por outras violações graves, tais como homicídios e mutilações, raptos e violência sexual.
“O rapto foi a quarta violação mais verificada em 2024, afectando 4.573 crianças. A República Democrática do Congo, a Nigéria e a Somália registaram os números mais elevados tanto de crianças raptadas como de crianças recrutadas e utilizadas.”
Yusuf disse que recebeu treino de combate assim que conseguiu empunhar uma espingarda de assalto AK-47. Os combatentes do ISWAP ensinaram as crianças a utilizar várias armas, incluindo metralhadoras pesadas montadas em veículos e granadas propulsadas por foguete. Homens do Médio Oriente e do Norte de África ensinaram aos seus instrutores como utilizar dispositivos explosivos improvisados e drones, disse Yusuf.
Recentemente, mudou de opinião, ansiando reintegrar-se na sociedade. Falou com um antigo combatente do ISWAP que tinha abandonado o grupo e que o encorajou a fazer o mesmo. Yusuf abandonou o grupo em Fevereiro com a ajuda das forças armadas nigerianas.
O homem com quem falou era Ali Ajaban, um antigo comandante sénior do ISWAP que saiu em 2021 e agora trabalha com o governo nigeriano contra a insurgência. Tinha sido instrutor de crianças recrutadas durante parte dos seus cinco anos como membro do ISWAP.
“Usamos crianças para combater porque, se começarmos a treiná-las desde tenra idade, elas não têm medo,” Ajaban disse ao The Times.
