O governo angolano acusou dois cidadãos russos de terrorismo, espionagem e tráfico de influência, no âmbito de uma campanha de desinformação destinada a alimentar protestos antigovernamentais antes das próximas eleições presidenciais.
Angola é o mais recente país africano a ser alvo de uma operação de influência russa conduzida pela African Politology, um grupo criado pelo ex-líder da organização anteriormente conhecida como Grupo Wagner.
Através da African Politology, o presidente russo Vladimir Putin tem procurado fomentar a agitação pública, particularmente antes das eleições, na República Centro-Africana, no Chade, em Madagáscar, no Mali, na Namíbia e na África do Sul, entre outros locais.
O objectivo é instalar governos favoráveis aos interesses russos, seja pacificamente através de eleições, seja derrubando instituições democráticas.
O governo angolano alega que agentes russos chegaram ao país em 2024 sob o pretexto de desenvolver um centro cultural russo conhecido como “Casa da Rússia” na capital, Luanda. Moscovo gere 14 Casas da Rússia em todo o continente.
Os observadores afirmam que Moscovo utiliza as operações das Casas da Rússia para espalhar propaganda e angariar apoio público para conceder às empresas russas acesso aos recursos naturais, como forma de a Rússia contornar as sanções internacionais impostas após a sua invasão da Ucrânia.
“Os russos estão a prestar este apoio em troca do controlo total ou de uma percentagem do controlo dos seus recursos minerais. É disso que a Rússia precisa: precisa de financiamento e precisa de influência. Isso ajuda a sua guerra na Ucrânia,” Irina Filatova, investigadora sénior associada da Universidade da Cidade do Cabo, disse à CNN. Filatova é uma historiadora russa especializada em história africana.
A Casa da Rússia de Luanda nunca se concretizou. Em vez disso, segundo o governo, agentes russos pagaram a jornalistas locais cerca de 24.000 dólares para plantar notícias apoiadas pela Rússia nos meios de comunicação locais, com o objectivo de provocar uma “mudança política.”
Maxim Shugalei, um agente político russo com ligações ao Grupo Wagner, e o seu tradutor, Samer Suaifan, estiveram entre os primeiros agentes russos a chegar a Angola no âmbito da campanha de influência. Ambos os homens tiveram um papel de destaque em operações de influência russas semelhantes no continente, incluindo no Chade, onde foram detidos em 2024 após um evento na Casa da Rússia em N’Djamena. Foram acusados de espionagem e tráfico de influência e foram deportados para a Rússia seis dias depois.
Antes da sua detenção, Shugalei e Suaifan utilizaram a Casa da Rússia no Chade para difundir propaganda através dos meios de comunicação locais, com o objectivo de minar a campanha do líder da oposição Succès Masra para Primeiro-Ministro.
Angola parece ser uma das poucas nações africanas a interromper a campanha de influência da African Politology antes que esta pudesse ganhar impulso.
As autoridades angolanas acusam o consultor político Igor Ratchin e o tradutor Lev Lakshtanov de 11 crimes. O governo também indiciou dois angolanos — um jornalista e um consultor político — por acusações semelhantes de participação na campanha de influência.
De acordo com a Radio France Internationale (RFI) francesa, Lakshtanov é o fundador da Farol, uma organização não-governamental que promove a cooperação cultural nos países de língua portuguesa. Ele e Ratchin entraram em Angola com vistos de turista e apresentaram-se como jornalistas que faziam um documentário, enquanto promoviam o centro cultural.
Lou Osborn, do grupo All Eyes on Wagner, disse à RFI que Angola e o Chade revelam a intenção da Rússia de influenciar os países africanos de forma discreta, “mas mais activa do que nunca.”
Segundo Alex Vines, director do programa africano do Conselho Europeu de Relações Externas, a operação de influência foi concebida para trazer Angola de volta à esfera de influência da Rússia, depois de o actual governo se ter virado para a Europa e o Ocidente.
Os laços de Angola com a Rússia remontam a décadas, mas enfraqueceram nos últimos anos. O governo angolano expulsou a empresa mineira de diamantes russa Alrosa e o banco VTB, no âmbito das sanções internacionais após a invasão da Ucrânia.
“Isso é indicativo da ansiedade russa quanto ao rumo que Angola está a tomar sob a administração de Lourenço,” Vines disse à BBC. “Há claramente um elemento de desinformação russa para tentar criar mais simpatia em relação à Federação Russa.”
