Os ataques terroristas e as mortes diminuíram drasticamente em todo o mundo em 2025, incluindo em partes de África, mas os números podem revelar uma história mais complexa sobre como os terroristas estão a tornar-se mais entrincheirados em regiões como o Sahel, de acordo com um novo relatório.
“Em 2025, assistimos à maior redução anual do terrorismo,” Thomas Morgan, investigador sénior do Instituto para a Economia e a Paz, disse à revista The Africa Report. Morgan foi o autor principal do Índice Global de Terrorismo de 2026.
“As mortes diminuíram 28%, os ataques diminuíram 22%, tendo a maior parte dessa diminuição ocorrido, na verdade, na África Subsariana,” afirmou. “Se olharmos para um país como o Burquina Faso, que tem estado no centro de tanta actividade terrorista nos últimos anos, este registou, na verdade, uma diminuição de cerca de 45% nas mortes ao longo do último ano.”
Três dos quatro grupos terroristas mais mortíferos do mundo foram responsáveis por menos mortes em 2025 do que em 2024. O grupo Estado Islâmico, o al-Shabaab e o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) estão todos activos em África.
Mesmo assim, África continuou a ser o epicentro do terrorismo mundial, dando continuidade a uma mudança de há anos do Médio Oriente para o continente. Em 2025, seis dos 10 países mais afectados pelo terrorismo situavam-se em África, de acordo com o índice. Todos os 20 ataques terroristas mais mortíferos ocorreram em África. Quatro dos 10 principais, incluindo os três primeiros, ocorreram no Burquina Faso.
A Nigéria e a República Democrática do Congo registaram, em 2025, aumentos no número de mortes causadas pelo terrorismo.
Os especialistas alertaram que a redução do número de mortes em alguns países não significa um enfraquecimento dos grupos terroristas. Na verdade, esses números podem apontar para uma realidade mais preocupante: que os grupos terroristas mudaram de táctica depois de se terem entrincheirado. Por exemplo, os terroristas do Sahel, como o JNIM, afiliado à al-Qaeda, estão a manter o controlo de territórios e a “integrar-se nos sistemas locais de formas que os tornam muito mais difíceis de desalojar,” de acordo com a revista The Africa Report.
“O que estamos a ver não é uma redução da capacidade jihadista, mas uma transição, de ataques de “ataque e fuga” para sistemas de controlo,” o investigador do Sahel, Alidou Werem, disse à revista. “Estes grupos já não são apenas actores violentos; estão a tornar-se potências locais enraizadas.”
O JNIM controla território significativo no centro do Mali e grande parte da zona rural do Burquina Faso. “O uso estratégico que o grupo faz de fronteiras porosas e de terrenos difíceis permitiu-lhe evitar confrontos directos com outros grupos e forças antiterroristas,” segundo o índice.
Os terroristas utilizam as fronteiras, cujas secções são abrangidas pelo complexo de parques W-Arly-Pendjari, para estabelecer esconderijos e deslocar-se de forma indetectável entre o Burquina Faso e o vizinho Benin. O índice indica que as forças armadas burquinabês controlam apenas cerca de 30% do território nacional. Embora o número de ataques em 2025 tenha diminuído, a letalidade do JNIM manteve-se, tendo matado 1.274 pessoas em quatro países: Benin, Burquina Faso, Mali e Níger.
Mais de três quartos das pessoas mortas pelo JNIM em 2025 eram polícias ou soldados, de acordo com o índice. Os terroristas também começaram a bloquear partes do sudoeste do Mali e impediram que o combustível chegasse a Bamako, atacando camiões-cisterna para enfraquecer a junta militar no poder.
“O que se observa quando se analisa grupos como o JNIM no Sahel central é um maior controlo sobre o território, o que, de certa forma, paradoxalmente leva a uma menor actividade terrorista, particularmente contra civis,” afirmou Morgan. “Ao mesmo tempo, o número de mortes associadas a ataques contra as forças armadas aumentou, e a letalidade desses ataques também aumentou.”
O JNIM desenvolveu alianças com grupos criminosos e redes de contrabando. De acordo com um relatório de 2025 do Journal of Illicit Economies and Development, o JNIM protegia contrabandistas em Mopti, no Mali, e na região da tríplice fronteira de Liptako-Gourma “do que consideravam autoridades corruptas,” acrescentando que, em partes da área do Burquina Faso, tinham deslocado as autoridades governamentais e dado aos contrabandistas liberdade para operar. O JNIM também cobrava menos impostos aos contrabandistas do que as autoridades, o que lhes permite comprar e vender através das fronteiras a preços mais vantajosos.
Tais desenvolvimentos apontam para uma mudança necessária na forma como as autoridades devem encarar o problema do terrorismo, de acordo com a The Africa Report. Eles preenchem lacunas deixadas por uma governação ineficaz e oferecem rendimentos e protecção a comunidades marginalizadas.
“Para as pessoas que se juntam a grupos extremistas armados, trata-se muito menos de uma motivação ideológica explícita e muito mais de uma questão relacionada com a actividade económica, mas também com a repressão estatal,” Morgan disse à revista.
“Se olharmos para as áreas que tiveram maior sucesso no combate ao terrorismo, vemos que conseguiram ir além dessa perspectiva de securitização e adoptar uma abordagem muito mais ampla.”
