EQUIPA DA ADF
A Rússia está a tentar construir o seu próprio sistema financeiro em África utilizando uma criptomoeda ligada ao rublo, no que os especialistas acreditam ser um esforço para contornar as sanções bancárias internacionais impostas após a invasão da Ucrânia em 2022.
De acordo com o Center for Information Resilience (CIR), a moeda, conhecida como A7, já encontrou utilizadores na Nigéria e no Zimbabwe. O Togo poderá ser o próximo — a empresa proprietária da moeda está a recrutar um gestor de projecto para desenvolver um sistema para a mesma naquele país.
A A7 foi lançada em 2024 por Ilan Sor, um oligarca moldavo, em parceria com o Promsvyazbank, uma instituição de crédito ligada à indústria de defesa russa. Tanto Sor como o Promsvyazbank (PSB) estão sujeitos a sanções internacionais. O projecto A7 liga duas tendências em África: a rápida expansão das criptomoedas para transacções diárias e a crescente presença da Rússia no continente.
Desde que o Quénia lançou a sua moeda digital M-Pesa em 2007, as criptomoedas evoluíram rapidamente para uma forma popular de dinheiro, particularmente entre os consumidores sem contas bancárias. Entre 2024 e 2025, as transacções de criptomoedas em toda a África Subsariana aumentaram 52%, de acordo com um relatório da especialista do sector Chainalysis. Isso representou mais do dobro do aumento de 24% registado entre 2023 e 2024.
No total, a África Subsariana realizou mais de 205 bilhões de dólares em transacções de criptomoedas entre 2024 e 2025. Embora esse total represente a menor economia de criptomoedas a nível global, o mercado está a crescer rapidamente.
As criptomoedas permitem que as pessoas recebam transferências de amigos e familiares que trabalham no estrangeiro sem passar pelos sistemas bancários tradicionais. Os sistemas de criptomoedas também se tornaram populares para transacções transfronteiriças entre empresas da Nigéria e da África do Sul, os principais mercados de criptomoedas do continente. A Etiópia, o Quénia e o Gana completam os cinco principais mercados de criptomoedas de África.
A Nigéria lidera África na adopção de criptomoedas e ocupa o sexto lugar a nível mundial. Uma desvalorização do naira em Março de 2025 causou um pico na utilização de criptomoedas, e as pessoas compravam tokens como protecção contra a inflação, de acordo com a Chainalysis. Na Nigéria, “a inflação persistente e os problemas de acesso à moeda estrangeira… tornaram as stablecoins uma alternativa atraente,” relataram os analistas.
Entretanto, a Rússia continua a procurar formas de contornar as sanções internacionais para financiar a sua invasão à Ucrânia. Nos últimos anos, isso significou a troca de serviços mercenários através do Grupo Wagner, agora Africa Corps, por direitos de exploração de diamantes, ouro e outros metais preciosos.
A introdução de uma criptomoeda baseada no rublo marca uma mudança de estratégia, de acordo com o CIR. O mercado-alvo da A7 inclui grandes empresas, pequenas empresas e utilizadores individuais, os analistas do CIR escreveram num relatório recente.
A A7 abriu recentemente um escritório na Nigéria, e o empresário nigeriano, Chidiebere Emmanuel Ajaere, registou duas empresas, a A7 Africa e a A7 Nigeria, no Quirguistão, a base da A7, de acordo com o CIR.
As autoridades da A7 visitaram discretamente Madagáscar e Togo em Janeiro. Por volta da mesma altura, os mercenários da Africa Corps chegaram a Madagáscar. Dois meses depois, a A7 começou a recrutar alguém para estabelecer uma rede no Togo.
“Estes desenvolvimentos podem indicar que a operação da A7 está a entrar numa nova fase, na qual está mais directamente integrada na maquinaria das operações estratégicas e militares do Kremlin a nível internacional,” escreveram os analistas do CIR. “Isso tem implicações para a natureza dos riscos representados pela rede da A7 e para as respostas necessárias para os combater.”
O sistema A7 promove-se como uma fonte de serviços internacionais de importação e exportação, câmbio de moeda, pagamentos e compras internacionais e geração de rendimento passivo. Afirma ter mais de 10.000 utilizadores. Cada compra de uma moeda A7 coloca dinheiro — o chamado “dinheiro fiduciário” — no PSB, que lucra com os juros sobre o dinheiro que detém, observaram os investigadores do CIR. Esse é dinheiro que pode então fluir para a indústria de defesa da Rússia.
Não se sabe, no entanto, se a utilização de moedas A7 para transacções financeiras é legal.
“A combinação de estratégias tradicionais, baseadas em moeda fiduciária e mais inovadoras de criptomoedas para movimentar dinheiro através das fronteiras irá provavelmente representar um desafio significativo para os regimes de sanções existentes,” escreveram os investigadores do CIR. “Isso levanta a questão de saber se a simples compra de tokens poderia, por si só, constituir uma potencial violação das sanções.”
