Depois de ter sido forçado a combater na guerra da Rússia contra a Ucrânia, Lifa Miya regressou a casa, na África do Sul, em Setembro, com várias lembranças dolorosas do seu calvário: uma prótese na perna, memórias de pesadelo e inúmeros fragmentos de estilhaços que os médicos deixaram no seu corpo.
Este homem de 40 anos, natural de Durban, considera a sua história um aviso para qualquer pessoa de África que receba uma oferta de emprego lucrativa na Rússia.
“Parti com as minhas duas pernas, regressei com uma e com relatos horríveis sobre os horrores da guerra que enfrentámos,” disse ao TimesLIVE, um jornal online sul-africano. “Considero-me afortunado, há muitos outros que nunca conseguiram regressar.”
Miya e 19 compatriotas voaram para a Rússia a 8 de Julho de 2025 e assinaram contratos redigidos em russo, uma língua que não sabiam ler nem compreender. Recrutados por Duduzile Zuma-Sambudla, na altura deputada e filha do ex-presidente Jacob Zuma, foi prometido aos homens uma formação de segurança de elite para serem guarda-costas do partido político MK.
“Inicialmente, ela fingiu que ia à Rússia para nos receber. Mas mais tarde ficámos a saber que ela nunca tinha saído da África do Sul, apesar de fingir estar na linha da frente no nosso grupo de conversa do WhatsApp,” um dos repatriados disse à Al Jazeera. “Foi assim que acabámos nas trincheiras.”
A Rússia recrutou dezenas de milhares de combatentes estrangeiros para a sua guerra na Ucrânia, de acordo com vários grupos internacionais de direitos humanos, que descrevem muitos dos casos como tráfico de seres humanos. As investigações concluíram que milhares de africanos foram enganados e coagidos a lutar pela Rússia com falsas promessas de emprego ou formação.
Num relatório divulgado a 26 de Outubro, a Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas sobre a Ucrânia afirmou que as autoridades russas “traficaram pessoas de 29 países, recorrendo ao engano ou à coacção, para as recrutar para as forças armadas russas.”
Zuma-Sambudla enfrenta uma investigação policial na sequência de uma queixa por tráfico de seres humanos. Foi forçada a demitir-se do Parlamento, uma vez que o Partido MK tentou distanciar-se do caso.
Thuram Mahlangu, porta-voz das famílias dos repatriados, alegou que Zuma-Sambudla e os seus associados receberam cerca de 845.000 dólares do Grupo Wagner, da Rússia, para recrutar os homens.
“Os nossos filhos foram vendidos,” um dos pais do grupo disse à Al Jazeera. “Prometeram-lhes empregos, mas, em vez disso, foram explorados.”
Dois dos homens morreram. Um regressou numa cadeira de rodas. Miya perdeu a perna esquerda e carrega as cicatrizes emocionais de ter sobrevivido a múltiplos ataques com drones.
Era Dezembro de 2025, e Miya tinha sido destacado com uma unidade de artilharia numa zona controlada pela Rússia na região de Donbas, na Ucrânia, quando foi apanhado num ataque com drones que lhe esmagou ambas as pernas e lhe causou graves ferimentos por estilhaços.
“Quando fui ferido, tinha uma pá nas mãos e a minha metralhadora de serviço aos ombros, fazendo parte de uma equipa que cavava trincheiras na linha da frente,” contou. “Quando as pessoas gritaram ‘drone,’ percebi que era tarde demais para me atirar ao chão e procurar abrigo. Apontei a minha metralhadora para ele e disparei. Lembro-me de o ter atingido, mas este caiu não muito longe dos meus pés.
“Em seguida, fui transportado numa ambulância, com um dos meus pés gravemente mutilado e sem sentir nada no outro.”
Depois de os médicos terem colocado Miya num camião de transporte, um homem russo deu-lhe cigarros, instou-o a fumar para que não perdesse a consciência e, repetidamente, esbofeteou-o e bateu-lhe para o manter acordado.
Miya foi tratado por médicos num hospital de campanha na Ucrânia ocupada. Quando acordou num hospital de São Petersburgo após um coma de quatro dias, os médicos disseram a Miya que ele quase tinha sido declarado morto quatro vezes.
Antes de lhe ser permitido sair, as autoridades militares russas obrigaram-no a regressar a Donbas, perto da zona de guerra activa, para que os comandantes locais pudessem analisar os seus registos médicos e assinar os documentos de rescisão do seu contrato.
Miya espera que partilhar a sua história garanta que nenhum outro africano venha a sofrer o mesmo destino que ele.
“Costumávamos ver cadáveres todos os dias; por vezes, éramos obrigados a dormir ao lado de cadáveres,” afirmou. “Na verdade, numa zona de guerra, não há tempo para dormir. É guerra dia e noite.”
