Uma série de explosões no quartel-general da defesa da Etiópia e em bases militares, no final de Setembro, suscita preocupações de que os rebeldes do norte possam estar a utilizar drones para levar a sua luta a outras partes do país.
“O incidente parece apontar para uma mudança significativa na evolução da guerra com drones na Etiópia: as forças armadas federais podem já não ter um monopólio incontestado sobre a utilização de aeronaves não tripuladas no país,” escreveu recentemente o Ethiopian Observer.
O governo etíope não reconheceu oficialmente que a explosão no quartel-general da Defesa tenha sido causada por um drone. No entanto, testemunhas relataram ao Ethiopian Observer que um pequeno drone de curto alcance explodiu no interior da base da Força Aérea Etíope em Bishoftu, a cerca de 40 quilómetros a sudeste da capital, Adis Abeba.
Os analistas consideram que os ataques com drones constituem uma resposta da Aliança das Forças Populares Etíopes para a Sobrevivência à campanha da Força de Defesa Nacional Etíope (ENDF) para reprimir a rebelião em curso no Tigré.
Nas últimas semanas, a ENDF fez recuar os rebeldes, recuperando a capital do Tigré, Mekele, e suspendendo o tráfego aéreo para os aeroportos de Axum e Shire, controlados pelos rebeldes.
Os drones desempenharam um papel significativo na vitória do governo etíope sobre os rebeldes do Tigré no conflito anterior, que decorreu de Novembro de 2020 a Novembro de 2022. Essa guerra terminou com o Acordo de Pretória, que pôs fim às hostilidades, mas não conseguiu resolver outras questões que alimentam o descontentamento em todo o país.
A recente onda de ataques sugere que os membros da aliança adquiriram os seus próprios drones.
“Mesmo drones relativamente pequenos e de curto alcance podem representar um novo desafio de segurança para instalações militares anteriormente consideradas relativamente seguras,” escreveu o Ethiopian Observer.
A aliança é um conjunto de grupos étnicos de todo o norte da Etiópia, incluindo o Movimento Nacional Amhara Fano, a Frente de Libertação do Povo do Tigré, o Exército de Libertação Oromo, a Frente Nacional de Libertação de Ogaden (ONLF), a Frente Revolucionária Democrática de Unidade Afar (Ugugumo), o Movimento de Libertação dos Povos de Benishangul e o Movimento Democrático dos Povos de Gumuz.
No entanto, a aliança parece apresentar desacordos internos. A ONLF declarou à Al Jazeera que apoia os objectivos políticos da aliança, mas não os seus objectivos militares. Os movimentos de Benishangul e Gumuz disseram recentemente à Deutsche Welle Amharic que não fazem parte da aliança.
Os ataques com drones da aliança no interior do território controlado pelo governo parecem ter como objectivo enfraquecer a capacidade aérea das forças armadas, enquanto mantêm as tropas etíopes ocupadas fora de Tigré, segundo analistas da EurAfrica.
“Esta campanha também visa provavelmente demonstrar simbolicamente as capacidades e o alcance da coligação rebelde em todo o país,” escreveram recentemente os analistas da EurAfrica.
O ataque ao quartel-general da defesa da Etiópia constitui um ataque a um elemento-chave do controlo estatal por parte de um grupo cujo objectivo declarado é destituir o Primeiro-Ministro Abiy Ahmed Ali do poder, segundo Pratibha Thaker, directora regional para África, da Economist Intelligence Unit, um grupo de investigação e análise.
“O efeito pretendido pode ir além dos danos físicos: demonstrar que Adis Abeba é vulnerável, atrair recursos de segurança para a capital e minar a capacidade do governo de apresentar os combates como estando confinados ao norte,” Thaker disse ao The Africa Report.
A Eritreia parece estar a apoiar a aliança em resposta ao desejo do governo etíope de criar um corredor através da Eritreia até ao Mar Vermelho.
Alimentar o conflito no Tigré dificulta a capacidade da Etiópia de invadir a Eritreia, segundo Jalale Getachew Birru, analista da África Oriental, do Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED).
“[A Eritreia] procura criar uma zona tampão entre a Etiópia e a Eritreia, tornando o Tigré hostil à Etiópia,” Birru escreveu recentemente. “Por conseguinte, as forças eritreias entraram na guerra no Tigré para impedir que o governo etíope e as forças aliadas chegassem à fronteira e, potencialmente, combatessem dentro do território da Eritreia.”
