Com o controlo de quase 90% da indústria mineira do Zimbabwe, as empresas chinesas enfrentam um novo nível de escrutínio, particularmente no sector do lítio. As comunidades locais, a sociedade civil e os grupos ambientalistas acusam as operações mineiras de exploração e abusos generalizados.
O Zimbabwe possui os maiores depósitos de lítio do continente e as sextas maiores reservas do mundo. A mineração é fundamental para a economia, representando cerca de 14,5% do produto interno bruto e 75% das exportações nacionais. Em 2025, o Zimbabwe exportou 1,128 milhões de toneladas métricas de concentrado de espoduménio contendo lítio para a China, 11% mais do que em 2024.
No entanto, as acusações de práticas irregulares e de contrabando de minério bruto levaram o Ministério das Minas a anunciar, em Fevereiro, a suspensão imediata das exportações de concentrados de lítio, incluindo aqueles que já se encontravam em trânsito. A notícia foi inesperada, pois antecedeu em um ano a suspensão planeada das exportações. Numa altura em que a procura global por lítio disparou, o Zimbabwe procura subir na cadeia de abastecimento, processando o minério internamente para obter materiais próprios para baterias.
A descoberta, em Janeiro, de minério do Zimbabwe armazenado no Porto da Beira, em Moçambique, levou as autoridades a investigarem se este tinha sido contrabandeado, violando as restrições à exportação.
“Gostaria de lembrar a todos os que estão envolvidos na mineração, bem como às nossas agências policiais que controlam os nossos portos de entrada, que o governo adoptou a posição de impor uma proibição geral à exportação de minério, com vista a garantir que haja uma maior actividade de valor acrescentado nos nossos minerais,” o porta-voz presidencial George Charamba disse ao jornal zimbabweano The Herald, em Janeiro.
“Caso se verifique que as reservas na Beira dizem respeito a minerais aos quais esta proibição se aplica e que saíram do nosso território sem a autorização necessária, o governo, em estreita colaboração com a irmã República de Moçambique, assegurará que a ponte seja reparada rapidamente e sem medo nem favoritismo.”
Grupos ambientais e da sociedade civil afirmam que algumas empresas chinesas operam com pouca responsabilização, prejudicando o ambiente e expondo os trabalhadores a condições perigosas. As comunidades que vivem perto de áreas de exploração de lítio têm-se queixado da contaminação da água, do esgotamento das águas subterrâneas e da poluição por poeiras perigosas associadas à exploração mineira.
“Os críticos afirmam que esta relação estreita permite que algumas empresas chinesas operem acima da lei, auxiliadas por funcionários locais corruptos que privilegiam o ganho pessoal em detrimento do interesse público,” o jornalista Mbam Chisom escreveu num artigo de Outubro de 2025 publicado no site nigeriano, The Africa Scorecard.
Em Dezembro de 2025, o Congresso dos Sindicatos do Zimbabwe (ZCTU) apelou ao governo para que controlasse as empresas chinesas acusadas de violações laborais e de direitos humanos.
“Temos sérias reservas, sobretudo no que diz respeito às empresas chinesas que parecem ignorar as questões do trabalho digno nas suas empresas,” o secretário-geral adjunto do ZCTU, Runesu Dzimiri, disse ao site New Zimbabwe. “Algumas afirmam abertamente que estão protegidas por certas autoridades.”
Os trabalhadores zimbabweanos das minas exploradas por chineses, muitas vezes, enfrentam condições perigosas e trabalham longas horas com salários miseráveis. Tem havido acidentes fatais atribuídos à negligência das empresas, numa altura em que os grupos de vigilância descrevem um desrespeito sistémico pelos procedimentos de segurança. Existem também casos documentados de violações de direitos humanos, como o de uma mina operada por um cidadão chinês que submeteu as trabalhadoras a exames médicos obrigatórios.
Exemplos recentes de cidadãos chineses acusados de assassinarem trabalhadores e membros da comunidade local provocaram indignação a nível nacional. Em Outubro de 2025, um supervisor de segurança chinês da Zhuhe Mining Investments, na província de Mashonaland Oriental, matou a tiro um homem local por invasão de propriedade.
“Este não é um caso isolado,” um líder da sociedade civil em Marondera, Mashonaland Oriental, disse ao The Africa Scorecard. “Isto reflecte um padrão mais amplo de exploração e desrespeito pelo nosso povo e pelas nossas leis. As comunidades estão a perder as suas terras e meios de subsistência, enquanto os lucros são exportados para o estrangeiro.”
Em Setembro de 2025, o secretário-geral do ZCTU, Tirivanhu Marimo, criticou veementemente a conduta dos cidadãos chineses nas suas empresas mineiras, bem como a dos seus “facilitadores locais.”
“As queixas crescentes de conduta bárbara nas operações chinesas constituem não só uma violação de direitos laborais, mas também um ataque directo à soberania do Zimbabwe, demonstrando desprezo tanto pelos direitos humanos como pelo Estado de direito,” disse num comunicado de Setembro de 2025.
“Para que o lema do governo ‘Zimbabwe está aberto a investimentos’ tenha legitimidade, não pode servir de cortina de fumo para a escravatura moderna, em que o investimento estrangeiro se torna sinónimo de violência desenfreada, exploração e impunidade.”
