O Africa Corps da Rússia está a retirar combatentes das regiões do norte do Mali para proteger a capital e a junta no poder, ao mesmo tempo que presta apoio aéreo e informações aos soldados malianos no terreno.
“De um modo geral, estão a assumir um papel mais secundário,” Benedict Manzin, analista principal para o Médio Oriente e África, da empresa de inteligência britânica Sybiline, disse à ADF.
“Estão a fazer tudo o que podem para evitar ter de enviar mais homens para o moedor de carne,” acrescentou. “Estão a tentar minimizar a exposição do pessoal e maximizar os danos que podem causar.”
O Africa Corps substituiu os notórios mercenários do Grupo Wagner em meados de 2024. A mudança ocorreu depois de o Grupo Wagner ter perdido dezenas dos seus combatentes quando a Frente de Libertação do Azawad (FLA) os emboscou, juntamente com soldados malianos, nos arredores de Tinzouatin, perto da fronteira com a Argélia.
Como braço do Ministério da Defesa da Rússia, o Africa Corps conta com cerca de 2.000 efectivos no terreno, muitos dos quais são antigos mercenários do Grupo Wagner. O contingente é significativamente menor do que a força do Grupo Wagner e tem cerca de metade do tamanho da força antiterrorista da Operação Barkhane da França, que a junta maliana expulsou do país em 2022.
A perda de Kidal, no norte do Mali, no final de Abril, para o FLA e o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) parece ter desempenhado um papel crucial na decisão do Africa Corps de permanecer mais próximo da sua base principal em Bamako.
O Africa Corps lançou ataques aéreos de seguimento sobre Kidal que destruíram infra-estruturas e forçaram os residentes a fugir. Os ataques foram realizados para apoiar as forças armadas do Mali (FAMa), que se tornaram a principal força terrestre no norte.
“O que estamos a ver é que eles estão a recorrer aos recursos aéreos,” disse Manzin. Isso incluiu recentemente o lançamento de bombas de fragmentação de fabrico russo contra comunidades da região de Kidal. Isso viola o compromisso do Mali ao abrigo da convenção internacional que proíbe munições de fragmentação.
“Eles têm menos recursos para desperdiçar,” disse Manzin sobre o Africa Corps. “Eles não querem espalhá-los por pequenas comunidades no norte, onde podem ser abatidos.”
Uma análise das recentes declarações do Africa Corps nas redes sociais mostra como o grupo mudou o seu foco para o centro e o sul do Mali, conduzindo a maioria das suas operações perto de Bamako, de acordo com o analista da BBC, Jacob Boswall.
Depois de se retirar de Kidal, o Africa Corps acelerou a sua campanha de propaganda com mais de 500 publicações no Telegram e noutros canais nas semanas após a derrota, observou Boswall numa publicação no X.
Para além de lançar ataques aéreos, o Africa Corps também tem tentado superar os bloqueios económicos que o JNIM impôs ao Mali. Os combatentes do Africa Corps e o apoio aéreo começaram a escoltar colunas de camiões que entram no país sem litoral a partir da Costa do Marfim, da Guiné e do Senegal, para os proteger de ataques do JNIM.
Mesmo enquanto o Africa Corps tem procurado reduzir a sua exposição no campo de batalha, o JNIM tem utilizado drones para bombardear combatentes russos nas suas bases.
Vídeos do JNIM recentemente publicados nas redes sociais mostram imagens captadas por drones de combatentes russos a serem mortos e de aeronaves russas a serem danificadas por bombas lançadas por drones que sobrevoavam a sua base em Sévaré.
O Africa Corps lançou os seus próprios ataques com drones armados contra posições do JNIM nas últimas semanas, incluindo um depósito de combustível do JNIM na região de Tombuctu, de acordo com analistas do Africa Terrorism Tracker.
O Mali gastou quase 1 bilhão de dólares em combatentes do Grupo Wagner e do Africa Corps desde o final de 2021. Nesse período, o governo e os seus aliados russos perderam o controlo do norte e viram o JNIM expandir o seu alcance por todo o Sahel, em parte, graças às tácticas brutais empregadas pelos russos e pelas FAMa contra civis do norte, observou Manzin.
“A estratégia que o Estado maliano está a adoptar é inútil e, a longo prazo, a estabilidade do Estado está em risco,” afirmou Manzin. “O resultado foi que, infelizmente, eles fortaleceram o JNIM ao forçar as comunidades a recorrerem a ele.”
