A táctica do grupo terrorista maliano Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin de bloquear estradas e incendiar colunas de camiões parece ter como objectivo minar a legitimidade do governo maliano, seguindo um modelo utilizado por outros terroristas.
Essas estradas são vias vitais para o abastecimento de combustível, alimentos e outros recursos para a população. Ao longo do último ano, o JNIM atacou colunas que vinham da Costa do Marfim, da Guiné e do Senegal, como parte de um bloqueio económico. O JNIM também desenvolveu um padrão de bloqueio de comunidades consideradas leais ao governo, enquanto recompensa as comunidades que considera colaboradoras. Recruta ainda novos membros em comunidades rurais onde os jovens carecem de oportunidades económicas.
Em conjunto, o JNIM parece estar a seguir o caminho traçado por outros grupos terroristas, incluindo o al-Shabaab na Somália, a al-Qaeda na Síria e os talibãs no Afeganistão, segundo analistas.
“Eles já se imaginam como o novo governo do Mali,” o especialista em segurança nigeriano, Bulama Bukarti, disse à BBC. “Já apelaram à Rússia para se tornar sua aliada caso tomem o controlo do governo.”
Seguindo o modelo de outros grupos islâmicos, o JNIM procura apresentar-se como uma alternativa legítima à junta governante em Bamako. Os acordos de não-agressão com as comunidades locais, muitas vezes, colocam o JNIM na posição anteriormente ocupada pelo governo, enquanto submetem os residentes à sua interpretação rigorosa do Islão.
Entretanto, a abordagem de mão pesada do governo em relação ao JNIM e a outros grupos matou milhares de civis suspeitos de pertencerem a grupos terroristas, alienando a população. O exemplo mais notório da abordagem do governo é o Massacre de Moura de 2022, quando soldados e mercenários russos mataram centenas de homens da etnia Fulani ao longo de três dias.
Os bloqueios do JNIM ecoam as tácticas utilizadas pela al-Qaeda e pelos talibãs para minar o controlo governamental na Síria e no Afeganistão. Os bloqueios também ajudam o JNIM a isolar comunidades, ao ponto de as forças de segurança malianas abandonarem as comunidades ou permanecerem isoladas nas suas bases.
Assim, será que o JNIM pode tomar o controlo do Mali da mesma forma que os talibãs tomaram o Afeganistão ou a al-Qaeda tomou partes da Síria?
“Embora o JNIM possa estar a seguir um manual semelhante ao de outros grupos, estes grupos têm capacidades diferentes e operam em contextos locais distintos,” o analista Liam Karr escreveu recentemente para o grupo de reflexão Hudson Institute. Por outras palavras: o que funcionou para a al-Qaeda ou para os talibãs pode não funcionar para o JNIM.
Por enquanto, o JNIM vê o bloqueio das colunas de combustível como a sua principal forma de pressionar a junta a render-se ou a impor a Sharia, a rigorosa lei muçulmana, em todo o país. A imposição da Sharia não é popular entre a população maliana, segundo Karr.
Entretanto, o governo envia soldados e combatentes do Africa Corps da Rússia para proteger as colunas. No entanto, ainda no dia 19 de Maio, o JNIM incendiou uma coluna que viajava da Guiné para Bamako.
“Embora o JNIM possa não capturar cidades, pode impor condições que levariam ao colapso da junta,” acrescentou Karr. Isso pode colocar no poder novos líderes mais propensos a aceitar as exigências do JNIM.
Apesar da sua promessa de criar uma força regional para combater o terrorismo, os líderes militares do Burquina Faso, Mali e Níger nunca financiaram tal força, deixando cada país a lidar com o JNIM e outros grupos, em grande parte, por conta própria, segundo Bukarti.
O JNIM começou a alargar o seu alcance para além dos Estados do Sahel, para o norte do Benin e para o noroeste da Nigéria.
Caso a junta maliana entre em colapso ou ceda às exigências do JNIM, os resultados provavelmente terão um efeito cascata em toda a região, alertou Bukarti.
“O Mali corre um sério risco de cair,” receia Bukarti. “Se isso acontecer, o Níger estará em grave perigo, tal como o Burquina Faso. Pode tornar-se uma crise mais ampla na África Ocidental.”
