A milhares de quilómetros da linha da frente na Ucrânia, outro país africano descobriu recentemente que dezenas dos seus cidadãos se viram envolvidos na brutal guerra de desgaste da Rússia, que tem causado um elevado número de baixas.
Pelo menos 18 zimbabweanos foram mortos enquanto lutavam ao lado das forças russas, afirmou o Ministro da Informação, Zhemu Soda, em Março, acusando agências de emprego fraudulentas de prometerem empregos lucrativos na Rússia para induzir os zimbabweanos a alistarem-se na guerra.
“Os nossos cidadãos estão a ser vítimas de indivíduos e redes sem escrúpulos que operam com total desrespeito pela vida humana,” disse numa conferência de imprensa em Harare, no dia 25 de Março, acrescentando que “os traficantes utilizam métodos sofisticados, muitas vezes, aproveitando as plataformas das redes sociais como o seu principal terreno de caça.”
Soda detalhou o padrão que as autoridades do Zimbabwe descobriram: prometem-se às vítimas salários atractivos e condições de trabalho seguras, mas, ao chegarem à Rússia, os seus documentos de viagem são confiscados e são “coagidos a entrar em combate activo.”
“Recebem pouca ou nenhuma formação e são colocados em situações de risco de vida,” afirmou. “Quando ficam feridos, são mortos ou capturados, os recrutadores desaparecem, deixando as famílias no Zimbabwe sem informações, sem apoio e sem ninguém a quem responsabilizar. Em muitos casos, a remuneração prometida nunca é paga.”
Pelo menos 63 outros zimbabweanos permanecem na zona de conflito, disse Soda.
Segundo a Ucrânia, mais de 1.700 africanos estão a lutar pela Rússia, embora o investigador do Instituto Francês de Relações Internacionais, Thierry Vircoulon, tenha estimado que entre 3.000 e 4.000 africanos se encontram entre os 18.000 a 20.000 combatentes estrangeiros no Exército russo.
Agora no quinto ano de um conflito que já matou cerca de 2 milhões de pessoas, a Rússia tem registado uma média de mais de 26.000 soldados mortos, feridos e desaparecidos por mês, num total de 1,2 milhões desde que invadiu a Ucrânia em 2022, de acordo com estimativas de Janeiro de 2026 do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.
Reportagens de investigação revelaram a vasta rede do Kremlin de recrutadores, agentes, empresas fantasmas e intermediários locais que têm sistematicamente visado africanos empobrecidos para reabastecer o Exército russo com o que os especialistas chamam de “carne de canhão.”
Sediada em Bulawayo, a unidade de jornalismo de investigação do Centro para a Inovação e Tecnologia (CITEZW) divulgou, no final de Fevereiro, a notícia de que a Rússia estava a recrutar civis do Zimbabwe para combater na Ucrânia.
“É muito difícil saber o número de zimbabweanos que foram recrutados para a Rússia, principalmente devido às redes que estavam a ser utilizadas para recrutar estes homens,” o jornalista do CITEZW, Zenzele Ndebele, disse à SABC News numa transmissão de 25 de Março. “Alguns mudaram-se da África do Sul para a Rússia. Outros foram recrutados no Zimbabwe. Outros foram recrutados em locais tão distantes como o Qatar para a Rússia. Por isso, penso que não têm uma ideia clara de quantas pessoas lá estão.”
Numa publicação nas redes sociais a 31 de Março, Soda afirmou que o governo está a trabalhar para repatriar quatro homens, enquanto “existem questões de documentação em relação aos outros.”
“O presidente instruiu este governo a agir com urgência e a resolver esta questão,” afirmou Soda no dia 25 de Março. “Estamos a lidar com isto em várias frentes críticas. Em primeiro lugar, no que diz respeito aos falecidos, o governo está activamente empenhado nos complexos esforços diplomáticos e logísticos necessários para repatriar os restos mortais dos falecidos.
“No que diz respeito à aplicação da lei, o grupo de segurança recebeu instruções para intensificar os esforços para identificar, rastrear e desmantelar as redes criminosas por trás deste sindicato de tráfico. Aqueles que estão a negociar as vidas dos nossos cidadãos em troca de lucro enfrentarão toda a força da lei.”
No final de Março, a polícia de Harare interceptou quatro vítimas no Aeroporto Internacional Robert Mugabe, o que levou à detenção de quatro homens zimbabweanos acusados de tráfico de seres humanos, de acordo com um relatório da CITEZW de 1 de Abril. Um procurador alegou que os homens conspiraram com um cidadão russo identificado como Ivan para traficar seis zimbabweanos para a Rússia.
