Quando o Zimbabwe anunciou uma proibição imediata das exportações de todos os minerais em bruto e concentrados de lítio em Fevereiro, os analistas internacionais consideraram a medida audaciosa. No país, no entanto, os zimbabweanos viram-na como uma questão prática de protecção da segurança nacional.
Com as maiores reservas de lítio do continente, o Zimbabwe assumiu o controlo não só da sua riqueza mineral, mas também da sua relação com a China. Os especialistas afirmam que isso provavelmente sinaliza uma tendência em toda África.
“A proibição das exportações de lítio pelo Zimbawe no final de Fevereiro mudou a forma como os países ricos em recursos estão a abordar as cadeias de abastecimento globais,” a analista de inteligência de risco Esther Sit escreveu numa análise de 25 de Março para o site Modern Diplomacy. “Ao reforçar o controlo sobre os seus recursos, o Zimbabwe exerce maior pressão sobre a China, que absorve mais de 90% das suas exportações de minerais.”
Sit continuou: “A proibição de exportação do Zimbabwe não surgiu do nada. Desde 2022, o Zimbabwe tem vindo a reforçar o controlo sobre as exportações de minério de lítio bruto e, posteriormente, alargou-o a todos os minérios de base não processados. Esta medida é um pilar central do quadro da Visão 2030 do país, que pretende aumentar o processamento interno e a valorização das matérias-primas.”
O lítio é um ingrediente essencial nas baterias de iões de lítio utilizadas na indústria de veículos eléctricos e em algumas baterias para electrónica de consumo, como computadores portáteis e telemóveis.
A proibição do Zimbabwe estava inicialmente prevista para entrar em vigor em Janeiro de 2027, um prazo que o governo esperava que levasse as empresas mineiras chinesas a começar a processar e refinar lítio localmente.
O Zimbabwe “irá envolver a indústria num futuro próximo sobre novas expectativas e o caminho a seguir,” o Ministro das Minas e do Desenvolvimento Mineiro, Polite Kambamura, disse num comunicado de 25 de Fevereiro a anunciar a proibição.
O ministério também enviou uma carta à Câmara de Minas do Zimbabwe, que representa as principais empresas mineiras, alertando que iria reajustar os processos de exportação devido à preocupação com “práticas irregulares contínuas durante a exportação de minerais.”
“Esta revisão faz parte de um esforço mais amplo para conter fugas e aumentar a eficiência dentro dos nossos sistemas,” lê-se na carta de 17 de Fevereiro, de acordo com a agência de notícias Reuters.
O Zimbabwe exportou 1,128 milhões de toneladas métricas de concentrado de espoduménio contendo lítio em 2025, um aumento de 11% em relação a 2024. A mineração é o segundo maior contribuinte para o produto interno bruto do Zimbabwe, representando 14,3% da produção, atrás apenas da indústria transformadora, de acordo com dados do Banco Mundial.
Com a elevada procura mundial de lítio, o Zimbabwe tomou medidas para controlar melhor os seus recursos naturais. Cidadãos e activistas apelam igualmente ao governo para que obrigue as empresas mineiras chinesas a cumprir as promessas feitas há anos de beneficiar as comunidades locais. As organizações não-governamentais do Zimbabwe, muitas vezes, acusam as empresas chinesas de não respeitarem as normas ambientais e laborais.
Indignados com uma mina a céu aberto operada pela empresa chinesa Chengxi Pvt Ltd., os residentes da cidade de Shurugwi apresentaram, a 30 de Março, uma petição solicitando ao Parlamento que interviesse devido a alegações de destruição ambiental, riscos para a saúde pública e violações de direitos humanos.
A organização ambientalista Centre for Natural Resource Governance, sediada em Harare, afirmou que práticas mineiras inseguras, incluindo o uso de cianeto e produtos químicos tóxicos, resultaram em grave degradação ambiental, perda de biodiversidade, poluição por poeiras perigosas que causam doenças respiratórias e contaminação do Rio Mutevekwi com metais pesados.
“Estas violações não são apenas ambientais, são um ataque directo à dignidade, saúde e meios de subsistência da comunidade,” a organização disse num comunicado de 30 de Março. “A Constituição é clara: os recursos naturais devem beneficiar as pessoas, não as prejudicar.”
Analistas como Sit esperam ver mais países ricos em recursos no continente seguirem o exemplo do Zimbabwe e não apenas restringirem o acesso a minerais sem refinação local, mas também exigirem concessões ambientais e laborais das empresas chinesas.
“É provável que este desenvolvimento redefina as relações económicas entre a China e os países africanos,” escreveu Sit. “Uma relação baseada na extracção está a dar lugar a uma parceria mais transaccional e ligada ao investimento. A segurança do abastecimento dessas empresas dependerá da sua disposição para se envolverem em investimentos a jusante e na transferência de tecnologia.”
