Os grupos terroristas têm vindo a visar cada vez mais estradas, comunidades e centros comerciais num raio de 10 quilómetros das minas no Sahel, de acordo com um novo relatório da organização de monitorização de conflitos ACLED.
O Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), uma coligação de grupos extremistas afiliados à al-Qaeda, é o principal actor rebelde no sector mineiro do Sahel. Esta coligação compete pelo acesso e controlo das minas com o Estado Islâmico na Província do Sahel (ISSP) e com os governos do Burquina Faso, Mali e Níger, bem como com os seus parceiros russos, o Africa Corps.
“À medida que os grupos militantes se expandem para novos territórios, a violência alarga-se frequentemente para além das minas, afectando vias de comunicação, comunidades e actividades económicas ligadas à extracção,” Héni Nsaibia, analista sénior do ACLED para a África Ocidental, escreveu no relatório de 22 de Julho. “O que pode começar por ataques a pessoal mineiro, infra-estruturas ou transportes pode evoluir para uma competição mais ampla pela mobilidade, controlo territorial, autoridade local e acesso aos recursos.”
Sendo a junta burquinabê a que detém menor controlo territorial, não é surpresa que o Burquina Faso seja o país do Sahel com o maior número de incidentes violentos relacionados com a mineração — 75% dos registados pelo ACLED entre Janeiro de 2015 e Junho de 2026, em comparação com 15% no Mali e 10% no Níger.
“Em 2025, a percentagem do Burquina Faso tinha descido para 54%, enquanto o Mali e o Níger representavam, respectivamente, 29% e 18% dos incidentes registados,” escreveu Nsaibia. “Esta mudança não reflecte um declínio da violência relacionada com a mineração no Burquina Faso, mas aponta antes para a crescente propagação do conflito relacionado com a mineração em todo o Sahel central.”
Lucia Bird Ruiz-Benitez de Lugo, directora do Observatório da África Ocidental da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional, disse que, independentemente de um grupo terrorista controlar directamente uma mina, este cobra um imposto em espécie. Assim, os mineiros de ouro pagam com ouro propriamente dito, em vez de dinheiro.
“Constatámos, através de incursões em bases, particularmente do JNIM, que os grupos podem, por vezes, ter volumes realmente bastante significativos de ouro nessas bases,” disse num webinar do ACLED realizado a 23 de Julho. “É uma forma de armazenar riqueza até que seja necessária, e é utilizada para adquirir recursos operacionais.”
O aumento internacional dos preços resultou numa corrida ao ouro no Sahel e forneceu combustível adicional para a expansão do terrorismo.
“As zonas mineiras atraem grupos armados por razões que vão muito além do acesso aos recursos minerais como fonte de financiamento,” afirmou Nsaibia. “As zonas de mineração artesanal, em particular, concentram actividade económica, populações móveis, ligações de transporte, equipamento e cadeias de abastecimento comerciais que podem apoiar operações militantes.”
Embora o controlo de uma zona mineira permita aos grupos terroristas gerar receitas através da tributação e da extorsão de pagamentos de protecção, também cria oportunidades para recrutar combatentes, recolher informações e exercer influência. Nsaibia disse que as zonas mineiras são extremamente valiosas como espaços multifuncionais para os grupos terroristas apoiarem as suas actividades militantes, governação e logística.
“Em algumas áreas, o JNIM transformou locais de mineração artesanal em bases semipermanentes onde os combatentes podem alternar entre papéis civis e de combate, misturar-se entre os mineiros, armazenar armas e equipamento e sustentar operações com um risco menor de detecção,” afirmou. “As actividades mineiras também podem proporcionar acesso a materiais com valor operacional, incluindo explosivos comerciais, detonadores, produtos químicos, combustível e peças sobressalentes para motociclos.”
Nsaibia disse que é improvável que o conflito relacionado com a mineração permaneça confinado ao Sahel central, visto que os grupos terroristas estão a envidar esforços sustentados para cercar os países da África Ocidental costeira.
“A expansão do JNIM em direcção às fronteiras com o Senegal, a Guiné, a Costa do Marfim e o Gana aumenta o risco de que os padrões já observados no Sahel central se espalhem mais para sul, até à África Ocidental costeira,” escreveu. “A presença consolidada do JNIM e do ISSP no noroeste e centro-norte da Nigéria irá provavelmente levar estes grupos a envolverem-se nas economias mineiras locais, criando novas oportunidades para explorar, tributar e extorquir as actividades de mineração artesanal nestas regiões.”
