Enquanto a República Democrática do Congo luta contra um surto persistente de Ébola, a desconfiança, a violência e a instabilidade estão a dificultar a capacidade de resposta das autoridades sanitárias. No entanto, as lições aprendidas com o passado e as melhores práticas de saúde pública oferecem um roteiro sobre como travar a propagação desta doença mortal.
Os especialistas temem que o surto, que teve início em Maio, ainda não tenha atingido o seu pico e possa durar um ano. “Infelizmente, ainda se encontra na fase de expansão,” a Dra. Anne Ancia, representante da Organização Mundial de Saúde na RDC, disse aos jornalistas a 7 de Julho, segundo a Reuters. “Gostaríamos de dizer que a situação está a estabilizar-se, mas, francamente, ainda não podemos afirmá-lo.”
Dados do governo da RDC revelaram que os casos confirmados tinham atingido 1.708, com 580 mortes, a 8 de Julho, segundo a Reuters.
As autoridades congolesas já enfrentaram 16 surtos anteriores de Ébola, incluindo um em 2018 que durou quase dois anos, infectou 3.470 pessoas e causou 2.287 mortes nas províncias de Kivu do Norte, Ituri e Kivu do Sul.
A violência de longa data no leste do país, o deslocamento significativo da população, a escassez de recursos médicos e a insegurança alimentar estão a dificultar o trabalho árduo, mas eficaz, de rastreamento de contactos, contenção e tratamento.
O surto actual apresenta desafios adicionais. Não existem vacinas nem tratamentos aprovados para a rara variante do vírus de Bundibugyo e o pessoal médico não conseguiu confirmar rapidamente a doença, uma vez que os testes disponíveis só funcionavam para estirpes mais comuns, como o Ébola e o vírus do Sudão. As amostras de sangue tiveram de ser enviadas para a capital, Kinshasa, a cerca de 1.500 quilómetros de distância, para análise e confirmação, o que causou atrasos de vários dias no diagnóstico e permitiu que o vírus, em expansão, ganhasse tempo precioso.
“Este atraso na detecção permitiu que o vírus circulasse entre a população e entre os profissionais de saúde durante semanas (possivelmente já em Fevereiro) sem intervenções específicas para o Ébola,” de acordo com um relatório do Centro de Estudos Estratégicos de África.
Outras condições que complicam a resposta, segundo o Centro Africano, incluem:
- Algumas áreas, incluindo parte da província do Kivu do Sul, são controladas por grupos armados, como a milícia M23. O encontro com esses grupos a caminho dos centros de saúde dissuade os doentes e o pessoal médico.
- Os campos de deslocados superlotados — mais de 5 milhões de pessoas foram desalojadas nas três províncias afectadas — dificultam as respostas e facilitam a propagação do vírus. Foram registadas mortes em três campos que acolhem dezenas de milhares de pessoas.
- A remota região oriental da RDC já dispunha de recursos de saúde limitados, incluindo um número insuficiente de médicos, enfermeiros e medicamentos. A violência agravou essa escassez. O acesso à água potável e à higiene também é limitado.
- A insegurança alimentar afecta quase 10 milhões de pessoas na região, diminuindo a resiliência contra o Ébola e outras doenças.
- A área é habitada por pessoas em trânsito que trabalham em minas de ouro artesanais. Esses grupos atraem trabalhadoras do sexo e contrabandistas que podem propagar a doença à medida que seguem em frente. “As autoridades de Mongbwalu, uma das principais cidades mineiras de ouro, acreditam que mais de 80 pessoas morreram de Ébola antes de o surto ter sido detectado.”
Talvez o desafio mais difícil no combate ao Ébola seja superar a desconfiança. A desconfiança e a ignorância do público foram os principais obstáculos no combate ao surto de Ébola de 2014 na África Ocidental, na Guiné, na Libéria e na Serra Leoa. Esse surto, o maior de sempre, infectou 28.610 pessoas e causou 11.308 mortes.
Apesar do seu desfecho trágico, o surto na África Ocidental forneceu um roteiro para envolver com sucesso populações que desconfiam do governo, enfrentam dificuldades económicas e recebem informações contraditórias ou erradas. “Estratégias de comunicação eficazes, educação para a saúde sensível às diferenças culturais e o envolvimento de líderes comunitários foram essenciais para superar estes desafios,” segundo um artigo de 2024 intitulado “Ébola: Dez anos depois — Lições aprendidas e preparação para futuras pandemias,” da autoria de Krutika Kuppalli para a PLOS Global Public Health.
“Construir confiança e promover a cooperação comunitária revelaram-se indispensáveis na gestão de crises de saúde,” escreveu Kuppalli. “Enfrentar estes desafios em futuros surtos requer um envolvimento precoce e contínuo, o desenvolvimento de estratégias de comunicação culturalmente adequadas, o combate ao estigma e o reforço dos sistemas e infra-estruturas de saúde para garantir uma resposta robusta e eficaz.”
Compreendendo isso, as autoridades de saúde da RDC e da OMS, em Setembro de 2025, colocaram o envolvimento da comunidade no centro da resposta a um surto de Ébola na província de Kasai. A protecção da comunidade foi incluída em todas as etapas da resposta e tornou-se fundamental para controlar o surto, informou a OMS em Junho de 2026. O surto infectou 64 pessoas e causou 45 mortes em três meses.
As equipas de resposta identificaram e recorreram a figuras locais de confiança para ajudar a combater os rumores e incentivar a cooperação. Vê-los ao lado das equipas de resposta tranquilizou o público e reforçou a confiança na resposta. As autoridades também recolheram feedback da comunidade através de vários fóruns, incluindo programas de rádio e grupos de cidadãos, e utilizaram essa informação para orientar as decisões relativas à vacinação e à forma de lidar com os receios em relação ao tratamento.
O pessoal responsável pelo envolvimento da comunidade convenceu os líderes tradicionais a ajudar a monitorizar e a apresentar relatórios semanais sobre indicadores que contribuíram para a vigilância da doença e melhoraram a comunicação entre as equipas de resposta e o público.
Relações públicas eficazes e informação fiável abrem caminho para intervenções eficazes, tais como o rastreamento de contactos, a realização de testes às pessoas e o tratamento dos doentes. Isso mantém os profissionais de saúde a salvo e os centros de tratamento seguros.
“A confiança da comunidade não é uma componente periférica ou ‘secundária’ da resposta a emergências,” segundo a OMS. “É um elemento fundamental que permite o sucesso das operações de resposta e ajuda as comunidades a protegerem-se em tempos de crise.”
