A violência sexual cometida por combatentes na guerra civil do Sudão está a aumentar à medida que os combates se alastram e se intensificam.
O Gabinete do Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) informou recentemente que foram documentados 546 incidentes deste tipo, envolvendo pelo menos 838 vítimas, desde o início da guerra em Abril de 2023; todas as vítimas, com excepção de 15, eram mulheres e raparigas. Mais de 25% dos incidentes envolveram violações em grupo, incluindo um caso em que uma vítima foi violada por, pelo menos, 10 agressores.
“Mulheres e raparigas estão a ser violadas e mortas nas suas casas e enquanto fogem, procuram comida, água e cuidados médicos,” disse Anna Mutavati, directora regional da ONU Mulheres para a África Oriental e Austral. “O recurso à violência sexual está enraizado no plano da guerra no Sudão.”
Desde o início dos combates, o número de pessoas que necessitam de apoio médico e psicológico devido à violência sexual quadruplicou, informou o ACNUDH. As vítimas relataram infecções de transmissão sexual em vários casos, enquanto algumas também sofreram lesões graves, incluindo danos graves nos órgãos reprodutivos e fracturas nos ombros e nas vértebras. Muitas vítimas não tiveram acesso a cuidados médicos adequados devido aos combates e à falta de unidades sanitárias em funcionamento.
A ONU informou que 30 mulheres e 29 raparigas sudanesas engravidaram após terem sido violadas. Entre elas, 10 foram submetidas a escravidão sexual ou forçadas a casar com combatentes armados. Tanto as Forças Armadas do Sudão (SAF) como as Forças de Apoio Rápido (RSF), de carácter paramilitar, são acusadas de agressões sexuais, mas a maioria das agressões sexuais foi cometida pelas RSF, afirmam os observadores.
Muitos dos ataques contra mulheres e raparigas ocorreram em campos de deslocados. Al-Tatouma Juma, uma responsável pelo apoio psicossocial em Tawila, no Estado do Darfur do Norte, trabalha para uma organização local que presta serviços a mulheres e raparigas. No entanto, a capacidade do grupo “simplesmente não é suficiente,” disse à Entidade da ONU para a Igualdade de Género e o Empoderamento das Mulheres. Tawila acolhe centenas de milhares de pessoas deslocadas, incluindo mulheres e raparigas que fugiram de El Fasher, a capital do Darfur do Norte que caiu nas mãos das RSF em Outubro de 2025.
“Dei por mim a ouvir tantas histórias, e não são fáceis,” disse Juma, uma antiga residente de El Fasher. “Testemunhei o sofrimento de mulheres e raparigas durante a guerra. Conheço bem os abusos a que foram submetidas enquanto se encontravam no meio do fogo cruzado.”
Pelo menos duas mulheres e uma rapariga morreram na sequência de violações cometidas durante o cerco de El Fasher pelas RSF.
“A violência sexual parece ter sido utilizada para infundir terror na comunidade e foi frequentemente acompanhada por formas de tratamento ou punição cruéis, desumanos e degradantes, tais como açoites,” relatou a ONU.
Após a queda de El Fasher, os combatentes tomaram como alvo mulheres e raparigas das comunidades da etnia Zaghawa devido a supostas ligações às SAF. Muitas vítimas da etnia Masalit, do Darfur Ocidental, também afirmaram que os agressores lhes perguntaram sobre a sua tribo antes de as violarem. A violência sexual, muitas vezes, também era praticada durante ataques a residências particulares. A ONU documentou agressões sexuais em que familiares que tentavam intervir foram alvejados e mortos, e que alguns ataques foram cometidos na presença de familiares das vítimas.
Mariam, mãe de duas adolescentes, contou ao Fundo da ONU para a Infância que as suas filhas foram raptadas de casa. Ela disse que as procurou em vão durante semanas e adoeceu de tanta dor.
“Meses depois, um dos meus vizinhos … disse-me que as minhas filhas estavam bem, mas que homens armados as estavam a violar,” disse Mariam, um pseudónimo. “Não foi uma pessoa, nem duas, e as raparigas estão a sofrer imenso. A minha filha mais nova tentou suicidar-se cortando os pulsos … espancaram a minha filha mais velha de tal forma que ela vomitou sangue. Não lhes davam de comer e obrigavam-nas a trabalhar 24 horas por dia, a limpar, a passar a ferro e muito mais.”
Desde o início da guerra, as agressões sexuais resultaram na morte de, pelo menos, seis raparigas, cinco mulheres e dois homens, segundo a ONU. A vítima falecida mais nova tinha 9 anos. O comissário do ACNUDH, Volker Türk, caracterizou o uso da violência sexual como uma “arma de guerra.”
“Trata-se de um crime de guerra e, se cometido no âmbito de um ataque generalizado ou sistemático, de um crime contra a humanidade,” afirmou Türk.
