Muitas vezes, os analistas afirmam que a promoção do crescimento económico é uma ferramenta fundamental no combate ao terrorismo em regiões onde os terroristas recrutam novos membros.
Em toda a África Ocidental, por exemplo, as regiões fronteiriças dos países costeiros estão normalmente afastadas do governo central e carecem tanto de recursos como de oportunidades de emprego. Os analistas observam que tais condições tendem a gerar ressentimento entre essas populações, tornando-as vulneráveis à propaganda dos grupos terroristas.
De acordo com o antigo ministro de Estado angolano e actual professor de Direito, Dr. Carlos Maria Feijó, a segurança e o crescimento económico estão interligados: a segurança cria o ambiente que torna possível o crescimento económico e o crescimento económico cria as condições que melhoram a segurança.
“Com demasiada frequência, o pensamento convencional opõe as despesas militares às despesas de desenvolvimento, como se fossem quantidades que se subtraem umas das outras,” Feijó disse aos principais líderes militares do continente na conferência dos Chefes de Defesa Africanos, em Luanda, Angola.
“O desafio que se coloca aos Chefes de Defesa … é compreender que a vossa missão, correctamente entendida, consiste em criar as condições para que o investimento veja em África não um risco a evitar, mas uma oportunidade a abraçar,” acrescentou Feijó.
Ao investir na criação de emprego, na educação e nas infra-estruturas, os governos e as organizações internacionais podem reduzir o apelo dos grupos extremistas, segundo investigadores do Projecto Borgen.
A Costa do Marfim constitui um exemplo de como essa abordagem ao combate ao terrorismo pode funcionar. De acordo com o International Crisis Group (ICG), a Costa do Marfim respondeu às incursões extremistas há vários anos, reforçando a segurança ao longo da sua fronteira norte e, simultaneamente, aumentando os investimentos económicos destinados a aliviar a pobreza nas zonas onde os grupos extremistas procuram recrutas.
Os investimentos económicos incluíram programas de aprendizagem para combater o elevado desemprego juvenil e crédito para ajudar os residentes a expandir os seus próprios pequenos negócios. Esses investimentos ajudaram a Costa do Marfim a evitar um grande ataque terrorista desde 2022, de acordo com o ICG.
“A abordagem dupla que o governo da Costa do Marfim adoptou na gestão da ameaça jihadista contribuiu provavelmente para impedir os ataques,” escreveu o ICG. “No entanto, a Costa do Marfim não se pode dar ao luxo de ser complacente.”
A actividade económica não pode prosperar num clima de incerteza, em ambientes onde o terrorismo e a criminalidade prosperam, segundo Feijó.
“Quando as Forças Armadas garantem que uma linha férrea funciona, que um porto opera sem interrupções, que uma fronteira não é uma porta de entrada livre para o tráfico ilícito, estão a conduzir, no sentido mais estrito, uma política económica de primeira ordem,” afirmou Feijó. “A estabilidade não se decreta: constrói-se. A prosperidade não se importa: cultiva-se sobre o terreno firme da segurança.”
Para construir a prosperidade económica, os países africanos devem investir no tipo de segurança capaz de reprimir actividades ilícitas, como o contrabando e o tráfico, proteger as fronteiras dos seus países e combater o tipo de desinformação que pode alimentar o descontentamento, acrescentou.
“A resposta a estes desafios não requer, felizmente, a criação de novas instituições,” afirmou Feijó. “Exige que activemos, com método e vontade política, a arquitectura de que já dispomos.”
Citou o exemplo do seu próprio país, Angola, e da sua recuperação em curso após quase 30 anos de guerra civil, como um exemplo da união entre segurança e crescimento económico. Segundo algumas estimativas, Angola poderá ter até 20 milhões de minas terrestres não detonadas ainda enterradas nas suas zonas rurais. Organizações governamentais e não-governamentais têm passado décadas a localizar e a neutralizar minas que impedem a agricultura e outros tipos de desenvolvimento económico. Só nas províncias de Benguela e Huambo, as equipas neutralizaram mais de 280.000 engenhos explosivos não detonados.
“Aqui, em solo angolano, reside o paradigma de toda a relação entre segurança e prosperidade,” explicou Feijó. “Primeiro, o solo é desarmado; depois, é semeado.”
