Os recentes assassinatos de um comandante de topo do Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP) e de três tenentes no nordeste da Nigéria deixaram o grupo em desordem organizacional, no meio de combates em curso com as forças nigerianas e o grupo terrorista rival Boko Haram.
As tropas da Operação Hadin Kai da Nigéria e do Comando dos EUA para África (AFRICOM) mataram o comandante de topo Abu-Bilal al-Minuki, também conhecido como Abu-Mainok, no dia 16 de Maio, no Estado de Borno. Também foram mortos Mallam Haruna, Abu Huraira e Ba Yuram. Os quatro terroristas eram figuras-chave nas áreas operacional, logística e de segurança, Zagazola Makama, especialista em contra-insurgência e segurança, escreveu no X.
O Chefe dos Serviços de Informações de Defesa da Nigéria, Tenente-General Emmanuel Undiandeye, disse que as operações militares em curso fragmentaram as estruturas de liderança tanto do ISWAP como do Boko Haram e desmantelaram em grande parte as cadeias de abastecimento e outras redes de apoio dos grupos.
“As nossas forças atacaram-nos, dizimaram-nos e decapitaram-nos a tal ponto que as suas cadeias logísticas, os transportadores de armas e munições, bem como outras redes de apoio, foram amplamente desmanteladas,” Undiandeye disse numa reportagem publicada pelo jornal nigeriano, Vanguard.
Segundo Undiandeye, a situação de segurança na Nigéria melhorou consideravelmente devido ao reforço das capacidades operacionais, à recolha de informações e à utilização de tecnologia em colaboração com nações aliadas, incluindo a França, o Reino Unido e os EUA.
As perdas levaram à saída e à deserção de combatentes do ISWAP quando o grupo enfrentava ataques cada vez mais intensos do Boko Haram, que recentemente conquistou território significativo ao ISWAP na região do Lago Chade.
“Cada deserção bem-sucedida não só reduz os efectivos do ISWAP, como também cria mais oportunidades para a recolha de informações sobre a estrutura do grupo, as suas cadeias de abastecimento, finanças, disputas de liderança e métodos operacionais,” o analista Malik Samuel escreveu para a organização de investigação pan-africana, Good Governance Africa. “Os ex-combatentes têm, historicamente, fornecido informações valiosas que contribuíram para detenções, interdições e operações direccionadas contra redes insurgentes.”
Os analistas afirmam que as recentes perdas do ISWAP também exacerbaram as tensões, há muito latentes, entre os combatentes estrangeiros do ISWAP e os recrutas nigerianos. Segundo Samuel, muitos combatentes estrangeiros foram inicialmente bem-vindos no ISWAP, em parte devido à sua vasta experiência de combate, mas a tensão cresceu com o tempo, à medida que estes combatentes se consideravam indispensáveis e pensavam que podiam exercer maior influência sobre o grupo.
“Em muitos casos, a liderança do grupo mantém-se cautelosa quanto à atribuição de cargos sensíveis a pessoas de fora, particularmente quando estão em causa questões de confiança, etnia, língua, dinâmicas clânicas ou segurança operacional,” escreveu Samuel. “Antigos membros descrevem isso como uma fonte de atrito entre alguns combatentes estrangeiros e sectores da liderança local, sobretudo entre indivíduos que sentem que os seus sacrifícios e conhecimentos especializados não estão a ser devidamente reconhecidos e recompensados.”
Por outro lado, alguns combatentes estrangeiros insatisfeitos estabeleceram relações com os residentes locais que se sentem marginalizados pela liderança do ISWAP.
“Antigos membros sugerem que estas alianças aprofundam a desconfiança interna e o faccionalismo no seio do grupo,” escreveu Samuel.
Embora as perdas do ISWAP sejam significativas, o analista Joshua Biem e Ndu Nwokolo, sócio-gerente da empresa de investigação Nextier, sediada na Nigéria, alertaram que o grupo é notoriamente adaptável.
“O ISWAP demonstrou resiliência institucional ao longo de uma década de operações direccionadas, perdas de liderança e conflitos entre jihadistas com o JAS [Jama’atu Ahlis Sunna Lidda’awati wal-Jihad],” como o Boko Haram é conhecido localmente, escreveram num estudo recente. “As condições que sustentam a insurgência permanecem, em grande parte, inalteradas.
O sucessor de Al-Minuki ainda não foi nomeado. Alguns analistas consideravam que o candidato mais provável era Baba Shuwa, um comandante sénior vulgarmente conhecido como Ba Shuwa. No entanto, Makama noticiou no início de Junho que Shuwa recusou aceitar um cargo de liderança que teria sido proposto pelo comando central do EI no Iraque. De acordo com a agência de notícias HumAngle, sediada na Nigéria, outros candidatos são Abu Salem, um comandante de campo de batalha conhecido pela sua bravura em combate e autoridade religiosa, e Bana Chingori, que era considerado o adjunto mais próximo de Ba Shuwa.
“A disputa pela sucessão pode acelerar a violência entre jihadistas e os ataques retaliatórios contra civis, pois ambos os grupos competem pela legitimidade territorial e recrutam membros nas comunidades deslocadas pelo conflito renovado,” escreveram Biem e Nwokolo.
As operações militares em curso contra o ISWAP agravam o seu dilema de liderança. No dia 21 de Junho, Makama informou que as tropas da Operação Hadin Kai detiveram um suspeito de ser informador do ISWAP durante uma patrulha no Estado de Borno.
“A detenção faz parte das operações em curso, orientadas por informações de inteligência, da Operação Hadin Kai para desmantelar redes terroristas, identificar colaboradores e impedir que os grupos insurgentes tenham acesso a informações e apoio logístico nas comunidades de todo o Nordeste,” Makama escreveu no X.
No mesmo dia, Makama informou que o Exército nigeriano deteve três mulheres suspeitas de colaborarem com o ISWAP num campo de deslocados no Estado de Borno. Estas teriam estado ligadas à facilitação de movimentos e comunicação entre civis e terroristas.
