As forças russas que apoiam a junta militar do Mali começaram a utilizar drones do tipo kamikaze com visão em primeira pessoa (FPV) para atacar posições rebeldes no norte do país, imitando as tácticas que os rebeldes Tuaregues e os terroristas têm utilizado incansavelmente para expulsar as forças militares das suas bases na região.
A introdução dos drones de ataque FPV surge depois de o Africa Corps e as forças armadas do Mali terem sofrido múltiplas derrotas às mãos da Frente de Libertação do Azawad (FLA), de origem Tuaregue, e do seu rival que se tornou aliado, o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), nas províncias do norte do Mali.
A mais significativa dessas derrotas — a perda, em Abril, de Kidal, após mais de dois anos sob controlo do governo — seguiu-se a ataques com drones contra posições governamentais em Anéfis e Aguelhok, que acabaram por forçar as forças armadas e o Africa Corps a abandonar os seus postos.
Os drones FPV, pequenos, baratos e disponíveis no mercado, tornaram-se um elemento essencial dos grupos insurgentes no Sahel e noutros locais. Os drones ligam-se sem fios a um auricular que permite ao operador ver o que o drone vê, tornando possível seleccionar e atacar alvos rapidamente e com precisão.
A combinação de drones FPV com explosivos de fácil aquisição cria uma arma de baixo custo “devastadoramente eficaz,” o analista Shahryar Pasandideh escreveu na sua publicação da plataforma Substack, da Universal Dynamics.
Os combatentes da FLA tornaram-se particularmente hábeis na utilização de drones FPV contra as forças russas e malianas. Utilizaram drones para hostilizar as forças russas em retirada após a reconquista de Kidal, em Abril, e chegaram mesmo a abater um helicóptero do governo com um drone em 2025.
No ano passado, a FLA começou a utilizar drones ligados ao seu operador por cabos de fibra óptica com quilómetros de comprimento, uma tecnologia introduzida pela primeira vez na Ucrânia que torna os drones imunes a tecnologias de interferência. Os drones FPV têm outra vantagem em relação aos drones militares maiores e mais caros: podem gerar vídeos para as redes sociais, uma poderosa ferramenta de propaganda. Os insurgentes utilizam esses vídeos para desacreditar as forças governamentais e russas e para recrutar membros para a sua causa.
A Rússia tem utilizado outra tecnologia de drones, nomeadamente os seus drones Garpiya-A1, para atacar posições da FLA e do JNIM ao longo do último ano. A decisão de adoptar drones FPV pode indicar que o grupo mercenário vê a necessidade de intensificar a sua actividade para se manter nas boas graças da junta, segundo analistas.
Desde que chegaram ao Mali em 2021, as forças russas, primeiro com a empresa militar privada Grupo Wagner e, posteriormente, com o Africa Corps controlado pelo governo, têm-se envolvido em ataques frequentemente brutais contra grupos insurgentes e civis suspeitos de os apoiar. O mais notório desses ataques foi o Massacre de Moura, em 2023, durante o qual as forças do Grupo Wagner e do Mali mataram mais de 300 homens da etnia Fulani suspeitos de apoiar o JNIM ao longo de três dias na região central do Mali.
Em vez de eliminar a FLA, o JNIM ou o Estado Islâmico no Sahel, os ataques levaram mais pessoas a juntarem-se aos insurgentes, segundo o analista Wassim Nasr, do Soufan Center.
“As operações étnicas do Grupo Wagner saíram pela culatra,” Nasr disse à ADF. “Dezenas de Fulani foram mortos no centro do país. Isso apenas alimentou o recrutamento.”
A junta paga ao Africa Corps cerca de 10 milhões de dólares por mês, enquanto a situação de segurança no Mali continua a deteriorar-se. Desde que substituiu o Grupo Wagner em 2025, o Africa Corps reduziu o seu envolvimento directo no campo de batalha, preferindo operar drones enquanto as tropas malianas assumem a maior parte dos combates.
Essa abordagem reflecte, em muitos aspectos, a estratégia utilizada pelas forças antiterroristas francesas durante a Operação Barkhane, o que levou os líderes da junta a derrubar o governo democrático do Mali, segundo a analista Hannah Rae Armstrong. Armstrong contribuiu recentemente para o relatório da Fundação Carnegie para a Paz Internacional sobre o envolvimento da Rússia em África.
“Embora os objectivos da Rússia no Mali sejam mais limitados do que os da França, as dificuldades de Moscovo em alcançar mesmo estes objectivos podem levar outros regimes da região a reavaliar a Rússia como parceiro ao longo do tempo,” escreveu Armstrong. “A insurgência continua a ganhar terreno à medida que a Rússia — e os líderes militares que apoia — ignora os factores subjacentes, concentrando-se em objectivos de segurança de curto prazo.”
