Membros das Forças de Apoio Rápido (RSF), uma milícia paramilitar, continuam a desertar para o Exército sudanês, mas a presença de combatentes das RSF em áreas onde são acusados de cometer atrocidades contra civis enfurece aqueles que testemunharam a carnificina.
Em Maio, Ali “Al-Safna” Rizqallah, um antigo comandante das RSF que desertou juntamente com outras figuras de destaque, recebeu uma patente militar, segundo noticiou o jornal Asharq Al-Awsat. Al-Safna desempenhou papéis fundamentais nas batalhas de Cordofão e El-Fasher. As Nações Unidas concluíram que o cerco de 18 meses a El-Fasher terminou numa onda de mortes que revelou as “características de um genocídio.”
Muitos residentes locais acreditam que os combatentes das RSF desertam para evitar a responsabilização pelos seus crimes, incluindo assassinatos em massa, execuções sumárias, violência sexual, raptos para obtenção de resgate, tortura e o uso de crianças em hostilidades. Halima Ismail, que sobreviveu a incursões das RSF nos arredores de El-Fasher, onde Al-Safna serviu como comandante, está entre aqueles que desaprovam que antigos combatentes das RSF sejam acolhidos nas Forças Armadas do Sudão (SAF). Ela afirmou ter sido açoitada pelos combatentes paramilitares e tê-los visto a violar mulheres.
“Os combatentes das RSF, mesmo que procurem o perdão de Deus, não consigo perdoá-los devido ao que vi com os meus próprios olhos,” Ismail disse à Reuters.
A deserção de Al-Safna foi precedida por várias outras, incluindo a saída, em Abril, de Al-Nour “al-Qubba” Ahmed Adam, que entregou às SAF mais de 130 veículos de combate, um grupo de leais, informações tácticas de alto nível e anos de experiência brutal no campo de batalha.
O primeiro comandante de alto escalão das RSF a abandonar o grupo foi Abu Aqla Keikal, que se retirou em Outubro de 2024 enquanto comandava as forças das RSF no Estado de Gezira, no centro-leste do Sudão.
Observadores como o Brigadeiro-General Amin Ismail, reformado das SAF, agora especialista em gestão de crises, afirmaram que as tensões internas se intensificaram após um ataque das RSF à zona pastoral de Mustaraha, no Darfur do Norte, em Fevereiro, que teve como alvo o território de um proeminente chefe do clã Mahariya. Muitos comandantes das RSF são Mahariya, tal como Al-Qubba e Al-Safna. Ismail disse ao jornal Sudan Tribune que as queixas relativas aos cuidados médicos, aos salários e ao favorecimento de rivais Mahariya também aumentaram a agitação interna nas RSF.
Os analistas afirmam que as SAF estão empenhadas em aproveitar-se destas divisões e em acolher mais desertores.
Apesar da agitação interna, os analistas alertam que as RSF poderão lançar um ataque em grande escala contra a cidade de El Obeid, capital do Estado do Cordofão do Norte. Em meados de Junho, uma coligação internacional de 29 países alertou o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas para o aumento da violência na cidade e arredores.
“Estamos profundamente alarmados com os riscos urgentes de atrocidades e assassinatos deliberados no Sudão,” afirmou a Coligação para a Prevenção de Atrocidades e Justiça no Sudão. A coligação revelou que cerca de 500.000 civis estão “em risco de serem vítimas de atrocidades em grande escala.” As SAF também são acusadas de cometer atrocidades contra civis.
Segundo a coligação, ataques com drones mataram pelo menos 50 civis em El Obeid num período recente de 10 dias. “Os relatos generalizados e credíveis de violência de carácter étnico, incluindo violência sexual e de género, são deploráveis,” afirmou a coligação.
Entre 18 e 21 de Junho, os ataques com drones terão visado vários locais em El Obeid, incluindo uma subestação eléctrica e um posto de abastecimento de combustível, segundo informou o Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários. Estes ataques forçaram o encerramento de várias instalações médicas e provocaram a paralisação de estações de abastecimento de água. O Alto-Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, observou que os residentes de El Obeid têm suportado condições semelhantes a um cerco há 18 meses.
“Já vimos este cenário antes,” afirmou Türk. “Não podemos permitir que se repitam as atrocidades evitáveis que documentámos em al-Fasher e no campo de deslocados internos de Zamzam, no Darfur do Norte, no ano passado. Que isto sirva de advertência severa ao mundo sobre um desastre iminente em matéria de direitos humanos e o agravamento da situação humanitária. Os Estados com influência têm o dever de a exercer agora para travar esta loucura.”
