Desde que a guerra civil no Sudão começou em 2023, tem havido um receio generalizado de que os combates prolongados possam transbordar para além das suas fronteiras e desencadear um conflito mais alargado no Corno de África.
No início de Maio, uma série de ataques com drones atingiu o aeroporto de Cartum e abalou o que tinha sido uma sensação crescente de normalidade na capital sudanesa. Os drones tiveram como alvo terminais civis e atingiram um radar e um sistema de defesa aérea apenas uma semana depois de 300 cidadãos terem regressado no primeiro voo internacional desde o início da guerra.
“O episódio marca uma escalada perigosa no que se tornou um dos conflitos regionais por procuração mais complexos do mundo,” o especialista em Sudão, Elfadil Ibrahim, escreveu numa análise de 5 de Maio para o jornal The Arab Weekly. “A guerra civil de três anos no Sudão entre as SAF (Forças Armadas do Sudão) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), de carácter paramilitar, tem atraído cada vez mais potências externas, cada uma a perseguir a sua própria agenda.”
Numa conferência de imprensa de 5 de Maio, as SAF acusaram a Etiópia de cometer um “acto directo de agressão contra o Sudão.”
“Equipas técnicas analisaram os dados da aeronave e comunicaram com o fabricante, que confirmou que o drone, com o número de série S88, é propriedade dos Emirados Árabes Unidos,” o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Sudão escreveu num comunicado. “Confirmou também que o drone foi operado a partir do território etíope, especificamente do Aeroporto de Bahir Dar.”
Ao emitir uma negação no mesmo dia, a Etiópia acusou as SAF de fornecerem armas e dinheiro a mercenários tigrenhos e de “facilitarem assim as suas incursões ao longo da fronteira ocidental da Etiópia.”
“Existem provas amplas e credíveis que demonstram que o Sudão está a servir de centro nevrálgico para várias forças anti-etíopes,” lê-se no comunicado. “É evidente que estas acções hostis, bem como a série recente e anterior de alegações por parte de oficiais das Forças Armadas do Sudão, são levadas a cabo a mando de patrocinadores externos que procuram promover a sua própria agenda nefasta.”
Os especialistas acreditam que a menção de “patrocinadores externos” foi uma referência mal disfarçada ao Egipto, que é o maior apoiante das SAF. A intensificação da guerra de palavras aponta para as complexidades interligadas da guerra do Sudão e dos conflitos internos e regionais da Etiópia.
Como Primeiro-Ministro da Etiópia, país sem litoral, Abiy Ahmed tem agitado os vizinhos Eritreia e Somália com ameaças de obter acesso ao Mar Vermelho pela força. No oeste da Etiópia, o seu projecto da Grande Barragem do Renascimento Etíope desencadeou uma guerra de palavras com o Egipto sobre o controlo do Rio Nilo.
Quatro anos após a Guerra de Tigré, que causou a morte de cerca de 600.000 pessoas, o governo etíope acusa a Eritreia de apoiar e coordenar-se com a Frente de Libertação do Povo de Tigré, um grupo paramilitar. As forças federais etíopes também estão a combater milícias em duas outras regiões semiautónomas, Amhara e Oromia.
Enquanto os governos do Egipto, da Eritreia e do Sudão continuam a estreitar laços, alguns analistas alertam para que não se descreva a sua parceria crescente como um bloco anti-Etiópia.
“O termo ‘bloco’ pode ser demasiado rígido para as realidades do Corno de África,” Yonas Yizezew, investigador da Horn Review, disse à The Africa Report para um artigo de 9 de Junho. “O que parece estar a emergir não é uma aliança formal, mas um sistema de convergência no qual diferentes actores se encontram cada vez mais alinhados em torno de preocupações estratégicas sobrepostas relativas à crescente influência regional da Etiópia.”
O director do Crisis Group para o Corno de África, Alan Boswell, alertou que a acusação do Sudão contra a Etiópia marca uma viragem perigosa numa região já desestabilizada.
“Ambos os países … enfrentam enormes desafios internos e, essencialmente, ambos os lados vêem agora o outro como apoiando os seus opositores armados,” disse à Al Jazeera, acrescentando que a tensão exacerbada “cria uma dinâmica muito perigosa … e corre o risco de agravar ainda mais os seus próprios desafios internos.”
No dia 7 de Maio, as Forças Armadas do Sudão (SAF) responderam aos ataques com drones, anunciando que tinham reforçado as suas posições nas regiões de East Gallabat, Basunda e Al-Fashaga, no Estado de Gedaref, na fronteira com a Etiópia.
“O principal factor desencadeante é, na verdade, o facto de esta guerra no Sudão continuar a intensificar-se sem uma saída clara,” afirmou Boswell, “e está realmente a começar a dilacerar a região do Corno de África.”
