Dois ugandeses foram recentemente mortos quando lutavam pela Rússia na Ucrânia, aumentando o número crescente de baixas africanas nesse conflito.
Os dois homens, Michael Atuhaire e Ashiraf Damulira, estão entre os quase 1.500 africanos a lutar pela Rússia, muitas vezes, depois de terem sido atraídos para o país com promessas de trabalho lucrativo ou ensino superior. Muitos desses recrutas vieram do Quénia e da África do Sul. Outros vieram dos Camarões, do Gana e de outras partes do continente.
Atuhaire e Damulira foram identificados numa investigação sobre as práticas de recrutamento da Rússia realizada pela ONG suíça INPACT. O grupo colaborou com o projecto ucraniano “I Want to Live” para compilar “Business of Despair,” um relatório que detalha as formas como a Rússia leva africanos para a frente da batalha ucraniana para reforçar as suas próprias fileiras em declínio.
“O recrutamento de cidadãos africanos não é um fenómeno isolado, mas sim o cerne de uma estratégia deliberada e organizada,” escreveram os autores do relatório da INPACT.
O relatório inclui uma lista de mais de 300 africanos de 27 países mortos na Ucrânia. Os mortos provêm de todo o continente, da Argélia ao Zimbabwe.
Falta na lista da INPACT um terceiro ugandês, Edson Kamwesigye, que morreu no campo de batalha na região de Kharkiv, na Ucrânia, no início deste ano.
O jornal ugandês Monitor afirmou que os pais de Kamwesigye o identificaram através de publicações nas redes sociais. Antes de ser atraído para a Rússia, Kamwesigye, pai de três filhos, era segurança em Kampala, os seus pais disseram ao Plus News.
Com base em entrevistas com familiares, o jornal Monitor relatou que pelo menos 79 ugandeses foram enganados para lutar pela Rússia desde 2024.
O marido de Elizabeth Tabamubi, Pius, está entre aqueles que foram atraídos para a Rússia com falsas promessas antes de serem enviados para o campo de batalha com pouca formação. Ele viajou para a Rússia em Dezembro de 2025 com o irmão dela. Ambos acreditavam que seriam contratados como guardas de segurança.
Tabamubi disse à NTV que o marido lhe ligou da Rússia para dizer que a sua formação estava concluída. Depois disso, a situação mudou.
“Em vez disso, foram levados para o exército,” disse Tabamubi. “Ele disse que nem sequer sabem se vão sobreviver.”
Os africanos enviados para as linhas da frente russas, muitas vezes, têm de assinar documentos redigidos em russo, uma língua que não compreendem. Jennifer Namuli disse à NTV que o seu marido foi forçado a assinar sob a mira de uma arma.
Num vídeo criado pela 63.ª Brigada Mecanizada da Ucrânia, um homem ugandês capturado identificado como Richard confirmou a afirmação de Namuli ao descrever como veio para a Rússia à procura de trabalho e acabou no campo de batalha.
“Ele disse: ‘Tens de assinar,’” disse Richard no vídeo, imitando o gesto de uma pistola encostada ao lado do pescoço. Alguns africanos do seu grupo consideraram o suicídio para escapar do campo de batalha, segundo ele.
No campo de batalha, os africanos fazem parte das ondas de ataque russas ou são forçados a tornar-se bombistas suicidas contra as posições ucranianas. Os soldados russos referem-se alegadamente a esses bombistas como “abridores de latas.”
Innocent Kano, um parente de um ugandês na Rússia, disse à NTV que os homens atraídos para a Rússia nunca receberam o que lhes foi prometido.
Famílias ugandesas, incluindo os parentes dos homens mortos na Ucrânia, apelaram ao governo para trazer os seus maridos e familiares de volta para casa. Até agora, no entanto, as autoridades ugandesas afirmam que não têm condições para o fazer. Também não conseguiram trazer de volta os restos mortais dos mortos na Ucrânia.
Os familiares dizem que os recrutadores russos no Uganda estão a visar homens que trabalharam como guardas de segurança em zonas de conflito, como o Afeganistão, o Iraque e a Somália. Um recrutador, identificado apenas como Dimitri, visava homens desempregados através de grupos de conversa no WhatsApp.
“Eles estavam desesperados, por isso, este tipo aproveitou-se,” disse Kano. “Se soubessem (o que ia acontecer), não teriam partido.”
