Quinze países africanos bloquearam o acesso à internet dos seus cidadãos num total de 36 vezes em 2025. Os bloqueios, muitas vezes, ocorreram em resposta a agitação política, exames nacionais ou conflitos armados, de acordo com um relatório dos grupos de defesa da internet #KeepItOn Coalition e Access Now.
A Tanzânia liderou a lista, bloqueando o acesso à internet oito vezes durante o ano, incluindo um bloqueio de cinco dias em torno das eleições no final de Outubro, durante o qual as forças governamentais reprimiram os manifestantes, de acordo com o relatório intitulado “Rising Repression Meets Global Resistance (A repressão crescente encontra resistência global).”
Os conflitos internos lideraram a lista de bloqueios pelo terceiro ano consecutivo, de acordo com o relatório. Nesses casos, as autoridades utilizaram o controlo sobre a rede de telecomunicações para suprimir a informação.
“Esta tendência alarmante, que se mantém há vários anos, destaca um panorama de conflito em que os perpetradores agem com impunidade, enquanto cortam regularmente o acesso à internet para ocultar crimes de guerra e atrocidades e aterrorizar as populações,” escreveram os analistas.
Nos anos anteriores, os governos podiam desligar a internet, cortando-a na fonte, quer seja um cabo submarino ou uma junção terrestre semelhante. Em 2025, no entanto, as autoridades enfrentaram um desafio diferente: os satélites. As redes de comunicação em órbita terrestre baixa, como a Starlink, oferecem às pessoas uma alternativa ao acesso à internet, através de sistemas convencionais de telecomunicações fixas ou móveis.
Os governos responderam bloqueando o sinal da Starlink ou proibindo a sua utilização em partes do país. A Guiné Equatorial, por exemplo, proibiu a utilização não autorizada de serviços e equipamentos de internet por satélite e exigiu que a Starlink suspendesse o seu serviço no país.
A proibição visava a Ilha de Annobón, a província mais pequena e mais distante da Guiné Equatorial, onde os residentes protestam contra o governo e procuram a independência. A ilha está separada do resto da Guiné Equatorial pela nação de São Tomé e Príncipe.
O governo do Chade desactivou a Starlink em dois campos de pessoas deslocadas habitados por cidadãos sudaneses que fugiram do conflito no seu país.
“A Starlink era o único serviço de internet disponível para os campos, pelo que a desactivação isolou ainda mais as pessoas das comunicações e perturbou a entrega de ajuda humanitária,” observa o relatório.
Após o corte de três dias nos campos de Abu Tanqi e Maji, as autoridades exigiram taxas de acesso que não tinham sido exigidas anteriormente. As associações dos campos pagaram as taxas de 180 dólares por 40 dispositivos em Abu Tanqi e 80 dólares por 20 dispositivos em Maji, de acordo com a Darfur Network for Human Rights.
“A comunicação é mais do que uma conveniência — é uma tábua de salvação para os refugiados que enfrentam os desafios do deslocamento,” a Rede de Darfur escreveu num comunicado após o restabelecimento do acesso.
A guerra de três anos no Sudão entre as Forças Armadas do Sudão e as Forças de Apoio Rápido (RSF) levou a três bloqueios nacionais da internet em 2025, à medida que cada lado procurava controlar a narrativa em torno do conflito. Após bloquear o acesso à internet móvel durante os exames escolares nacionais em Julho, as autoridades sudanesas impuseram um bloqueio nacional separado às chamadas de voz e vídeo do WhatsApp com base em questões de segurança nacional. O bloqueio isolou a população civil do mundo exterior, de acordo com o relatório.
Em Outubro, as RSF utilizaram drones de fabrico chinês e equipamento sofisticado de interferência para bloquear a Starlink e o serviço de internet via telemóvel em el-Fasher, a capital do Darfur do Norte, antes de um ataque que acabou por quebrar o domínio do governo sobre a cidade. No apagão de comunicações que se seguiu, testemunhas relataram que os combatentes das RSF causaram estragos pela cidade, realizando execuções sumárias e outros crimes.
Apesar do número crescente de cortes em 2025, os defensores da liberdade de expressão e do acesso à internet conseguiram que os tribunais interviessem. O Tribunal de Justiça da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental decidiu que o corte de internet do Senegal em 2023 era ilegal, após ter sido contestado.
Na Tanzânia, o Tribunal de Justiça da África Oriental contestou um corte de cinco dias em torno das eleições no final de Outubro para impedir futuras acções semelhantes. Os recorrentes argumentaram que o bloqueio causou impactos económicos e sociais de “longo alcance” em todo o país, incluindo a perturbação dos serviços bancários e de saúde online.
Em última análise, os bloqueios da internet criam um ambiente que retarda a denúncia e a acção contra violações de direitos humanos, observaram os analistas da #KeepItOn Coalition.
“Os bloqueios permitem que os perpetradores ocultem a violência, evitem a responsabilização e privem as pessoas dos seus direitos, levando os investigadores a considerar os bloqueios como parte das investigações sobre crimes internacionais graves,” escreveram.
