A retirada das forças malianas e russas de Kidal, após a sua derrota perante forças insurgentes combinadas no final de Abril, colocou em causa o valor da estratégia de combate ao terrorismo da junta maliana, que depende fortemente da empresa militar privada russa, Africa Corps.
O custo dos serviços da Africa Corps — estimado em cerca de 10 milhões de dólares por mês para um contingente de cerca de 2.000 mercenários — leva muitos especialistas a considerarem que o governo deveria exigir um compromisso mais firme para justificar o retorno do investimento.
Segundo Habib Al Badawi, professor de relações internacionais na Universidade Libanesa, a imagem das forças russas a abandonarem a comunidade que ajudaram as forças malianas a capturar em 2023 revelou-se uma poderosa vitória de propaganda para o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) e para a Frente de Libertação do Azawad (ALF), de origem Tuaregue.
O responsável pelo programa da África Ocidental, no grupo de reflexão Konrad-Adenauer Stiftung, Ulf Laessing, disse à Al Jazeera que “o Africa Corps perdeu muita credibilidade” com a sua retirada das bases do norte e centro do Mali.
Nicolas Haque, da Al Jazeera, relatou que vários membros do exército, da polícia e das forças paramilitares do Mali foram deixados para trás e feitos prisioneiros em Kidal, além de equipamento valioso dos mercenários russos, como uma estação de operação de drones.
A perda de Kidal foi a mais recente derrota do Africa Corps, o sucessor do Grupo Wagner, controlado pelo governo russo e com 2.500 membros, que chegou ao Mali pela primeira vez em 2021.
Em Julho de 2024, rebeldes da etnia Tuaregue emboscaram combatentes do então Grupo Wagner e tropas malianas em Tinzouatin, perto da fronteira com a Argélia. A batalha causou a morte de 80 ou mais combatentes russos e de cerca de 54 soldados malianos. Continua a ser um dos dias mais mortíferos para as forças russas desde que o Grupo Wagner chegou a África em 2017.
O modelo de negócio do Grupo Wagner em África é simples: segurança do regime em troca de recursos naturais. O Grupo Wagner testou o seu modelo na República Centro-Africana em 2019, onde os seus combatentes passaram a garantir a segurança do presidente Archange-Faustin Touadéra, enquanto empresas afiliadas assumiram as operações de mineração de ouro e diamantes no interior do país.
O Grupo Wagner utilizou tácticas brutais contra pessoas que acusava de tentar derrubar Touadéra, muitas vezes, visando civis para execuções e outras violações de direitos humanos.
O Grupo Wagner levou tácticas semelhantes para o Mali em 2021 e, mais tarde, para o Burquina Faso e o Níger. Nesses casos, empresas russas extraíam ouro, urânio, lítio e outros minerais valiosos para ajudar o presidente russo, Vladimir Putin, a evitar as sanções internacionais e financiar a sua invasão à Ucrânia.
A título de exemplo, a Rússia está proibida de vender ouro, mas o Mali não está. Uma refinaria de ouro construída pela Rússia no Mali ajudará a Rússia a evitar sanções internacionais, branqueando ouro russo através do Mali, de acordo com um relatório do Instituto Robert Lansing para Ameaças Globais e Estudos Democráticos.
A oferta de recursos naturais em troca da promessa de segurança não conseguiu impedir a expansão da insurgência jihadista para as regiões central e ocidental do Mali, outrora seguras, e agora ameaça o colapso do Estado.
O Africa Corps mudou para um modelo que se concentra na protecção do regime, enquanto oferece treino e equipamento. Os especialistas afirmam que ceder o campo aos insurgentes do JNIM apenas lhes permitirá tornar-se mais fortes.
“Pode proteger temporariamente as autoridades governantes do colapso, mas expande os espaços sem governo, intensifica as insurgências e compromete as perspectivas de reconciliação política,” escreveram recentemente os analistas do Instituto Lansing.
Tal como na República Centro-Africana, os mercenários do Grupo Wagner no Mali acompanhavam rotineiramente os soldados no terreno e atacavam brutalmente civis suspeitos de colaborar com grupos terroristas. Organizações internacionais de vigilância estimam que as mortes de civis no Mali triplicaram após a entrada em cena dos mercenários russos.
“A abordagem russa aliena as populações locais,” escreveram os analistas do Instituto Lansing. “Relatos de abusos — assassinatos em massa, desaparecimentos forçados e violência sexual — minaram qualquer legitimidade que o governo maliano esperava construir através da sua aliança com Moscovo.”
Isso, por sua vez, empurra mais pessoas para os braços de grupos terroristas e agrava as tensões étnicas, acrescentaram os analistas.
As derrotas em Kidal e Tinzouatin expõem a fraqueza dos mercenários africanos da Rússia e o custo para os líderes que confiam na Rússia para garantir a sua segurança, segundo os analistas John J. Chin, Haleigh Bartos e Aleksaundra Handrinos, do Small Wars Journal.
“Não só as forças russas se revelaram incapazes de conter a instabilidade interna na maioria dos locais onde operam, como também deixaram um rasto de violações de direitos humanos e exacerbaram as queixas locais no processo,” escreveram Chin, Bartos e Handrinos.
“A verdadeira questão,” acrescentaram, “não é se, mas sim com que rapidez as fraquezas da Rússia como principal parceiro de segurança serão expostas.”
