Em Julho e Agosto, mais de 800 combatentes e comandantes das Forças de Apoio Rápido (RSF) desertaram do grupo paramilitar sudanês e declararam a sua lealdade às Forças Armadas do Sudão (SAF), o que poderá alterar o equilíbrio de poder no país.
Após anos de esforços internacionais infrutíferos para alcançar uma resolução pacífica da guerra, o líder das SAF, o General Abdel Fattah al-Burhan, manifestou o seu apoio a uma proposta de origem nacional para um diálogo nacional com o objectivo de pôr fim aos combates.
Em Julho, al-Burhan reuniu-se com líderes do Bloco Democrático, no âmbito de um encontro conjunto do Partido Nacional Umma e do Partido Unionista Democrático-Original. Os líderes desses grupos apelaram a um diálogo nacional, e al-Burhan comprometeu-se a criar as condições adequadas para o mesmo, de acordo com uma análise do jornal Al-Estiklal.
Em Agosto, al-Burhan disse que não definiria a agenda das discussões nem geriria o seu processo. No entanto, ofereceu imunidade temporária e suspensão dos processos criminais aos envolvidos no diálogo. Não está claro quem organizará o diálogo nem quem nele participará.
O analista político sudanês, Dr. Ibrahim Abdel-Atti, disse ao Al-Estiklal que a oferta de imunidade de al-Burhan pode incentivar o regresso de figuras da oposição que vivem fora do Sudão ou de outras pessoas que enfrentam acusações por motivos políticos. No entanto, acrescentou, uma promessa verbal por si só não é suficiente para garantir a sua segurança.
Enquanto os trabalhos avançam no sentido de um diálogo nacional, os combates continuam.
As Forças Armadas do Sudão (SAF) anunciaram em Julho que tinham assumido o controlo da Estrada das Exportações e de várias comunidades no Cordofão do Norte. A estrada liga Cartum à capital do Cordofão do Norte, el-Obeid, e tem sido uma linha de abastecimento fundamental para as RSF.
“Esse avanço reabriu uma ligação terrestre directa que tinha estado cortada durante grande parte da guerra e afastou as RSF de várias das suas posições mais importantes a norte de el-Obeid,” escreveram recentemente os analistas do Sudan War Monitor.
Entretanto, os combatentes das RSF assumiram o controlo de posições do Exército no Estado do Nilo Azul, na fronteira sudeste do Sudão com a Etiópia e o Sudão do Sul, em meados de Setembro, de acordo com o Sudan War Monitor. O Nilo Azul alberga a Barragem de Roseires, uma das principais centrais hidroeléctricas do Sudão.
Al-Burhan recusou-se a aceitar qualquer desfecho que devolva as RSF e o seu comandante, o General Mohamed Hamdan “Hemedti” Dagalo, à posição de poder que detinham antes do conflito. Al-Burhan descreveu tal desfecho do conflito como “uma paz sem substância.” Disse que qualquer processo de paz deve começar com a saída dos combatentes das RSF das áreas urbanas do Sudão.
A menos que isso aconteça, a acção militar continua a ser a única alternativa, Malik Agar, vice-presidente do Conselho de Soberania Transitório de al-Burhan, disse recentemente à Al Jazeera.
O Tenente-General Yasir al-Atta, comandante-chefe adjunto de al-Burhan e membro do Conselho de Soberania Transitória no poder, disse ao jornal egípcio Al-Shorouk que as forças armadas insistiriam na permanência de al-Burhan no poder enquanto os partidos políticos se reorganizam.
Entretanto, comandantes desertores das RSF, como Al-Nour Hussein Al-Dodo, relataram que os líderes das RSF enfrentam a detenção ou a execução caso não cumpram as ordens. Ele previu mais deserções nos próximos meses.
“O equilíbrio militar em mudança poderá agora estar a começar a definir os termos da próxima fase política do Sudão,” a Al Jazeera escreveu numa análise recente. “Para as RSF, o desafio não consiste, portanto, apenas em manter o controlo do território. Consiste em impedir que a pressão no campo de batalha se transforme numa crise interna de coesão.”
